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Galpão com lixo tóxico continua sem solução

02/05/2010

Ainda não há prazo para transferir as 1.150 toneladas de rejeitos guardadas no terreno

23 de abril de 2010 | 0h 00

Clarissa Thomé / RIO – O Estado de S.Paulo

Dezoito anos após a desativação da estatal Nuclemon em São Paulo, começou na semana passada a descontaminação de um terreno radioativo na Avenida Interlagos, zona sul. A área abrigava uma das usinas da empresa, cujas operações jogaram no solo areia com minerais pesados. O objetivo das Indústrias Nucleares do Brasil, substituta da Nuclemon, é limpar e liberar o terreno de 54 mil metros quadrados para “uso irrestrito”.

“A classificação de uso irrestrito permite a instalação de qualquer tipo de atividade sem risco algum para a saúde”, afirma o coordenador da unidade São Paulo da INB, Valter Mortagua. “E a INB, em princípio, não tem interesse em manter a área.”

A descontaminação, no entanto, deixa de fora a parte mais sensível para ambientalistas: o armazenamento de 1.150 toneladas de rejeito radioativo das usinas Santo Amaro (Usan) e Interlagos (Usin) em um galpão instalado do terreno. “A segunda fase para remoção e transferência dos rejeitos ainda está em estudo. Ainda não temos prazo nem local definidos”, diz Mortagua.

A areia com minerais pesados que recobre o terreno é proveniente da Usan, que tinha como matéria-prima areia monazítica extraída das praias do norte fluminense. Essa areia passava por um processo químico para obtenção de urânio e tório. O que sobrava dessa areia monazítica era lançado em Interlagos. O material manteve a concentração radioativa em pelo menos cinco pontos do terreno, mas em quantidade que não causaria danos a quem vive ali, segundo a INB. “Essa areia é similar à das praias de Guarapari, no Espírito Santo, e não causa risco à saúde”, explica o coordenador.

Sem segurança. Já o diretor do Greenpeace André Amaral diz que não há níveis seguros de radiação. “Eles pegaram a areia monazítica que estava espalhada pelo litoral e concentraram. Ela teve contato maior com o elemento radioativo”, afirma.

O físico Antônio Carlos de Freitas, do Laboratório de Radioecologia e Mudanças Globais (Laramg), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, explica que a areia passou por processos para extrair seus componentes radioativos. “Se houvesse algum risco, a população de Guarapari estaria mais suscetível, porque lá a concentração de radiação é ainda maior. Nenhum estudo conseguiu demonstrar isso.” Mas Freitas defende que a areia seja retirada de Interlagos. “Há concentração maior do que o normal de areia monazítica.”

Vinte homens e dois técnicos de radioproteção (para monitorar os índices de radiação) trabalham desde a sexta-feira passada no terreno. Eles têm a ajuda de uma retroescavadeira, para retirar a areia e separá-la.

De um total de 380 metros cúbicos de terra, a estimativa inicial é que 80 metros cúbicos estejam contaminados. Essa areia será armazenada em tambores metálicos dentro do galpão de 2.200 metros quadrados, que existe no próprio terreno.

Após novos testes, os 300 metros cúbicos restantes serão encaminhados para aterro sanitário ou utilizados para recompor o terreno. O trabalho está previsto para levar um ano. Só então técnicos da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen) farão a reclassificação da área,.

PARA ENTENDER

A Nuclemon Mínero-Química era uma das empresas do programa nuclear brasileiro. Fechada em 1992, suas atividades foram absorvidas pelas Indústrias Nucleares do Brasil (INB). A Usina de Santo Amaro (Usan), uma das unidades da Nuclemon, foi desativada entre 1992 e 1996. A intenção era que os rejeitos da usina – um concentrado de urânio e tório – fossem levados para uma usina em Caldas (MG), no fim dos anos 90. Itamar Franco, então governador de Minas, proibiu o armazenamento de rejeitos radioativos de outros Estados em território mineiro. O material ficou na Usina de Interlagos (Usin), que guarda 1.154 toneladas de terra contaminada em 6.778 tambores. O terreno da Usan foi descontaminado, vendido e hoje abriga prédios.

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Vizinhos mais novos nem sabiam sobre o risco

02/05/2010

 O Estado de S.Paulo

Falar em “descontaminação” no bairro Campo Grande, em Interlagos, na zona sul de São Paulo, é sinônimo de alívio para os moradores mais antigos da área, acostumados a viver ao lado do terreno das Indústrias Nucleares do Brasil (INB), 54 mil metros quadrados rodeado de placas “Perigo: Risco de Radiação”.

Para moradores recentes, porém, a contaminação do terreno vizinho é uma surpresa. “Contaminado? Consultei vários corretores e não disseram nada. Se soubesse, pesquisaria mais”, afirma o gerente de vendas Thiago Lopes, de 26 anos, que comprou apartamento em junho, em condomínio do lado do terreno.”Só espero que limpem direito.”

“Já imaginou uma usina nuclear desativada ao lado de sua casa? Dizem que não traz risco, mas uma coisa eu sei: já vai tarde”, resumiu o contador Antônio Costa, de 61 anos, morador da Rua João Ferreira de Abreu, próxima ao terreno da INB. “Desde que cheguei aqui, em 1982, falam em desativar e descontaminar. Espero que agora aconteça mesmo”, afirma Costa.

Entorno. O perímetro definido pela Comissão Nacional de Energia Nuclear para verificação de radioatividade no entorno é formado por 25 quarteirões residenciais, com praças, clube comunitário e duas escolas públicas, além de seis grandes indústrias, como a empresa de cosméticos Avon e a sede da montadora Peugeot. A conclusão dos técnicos foi de que o índice é aceitável.

Ainda assim, outra moradora antiga do Campo Grande, a dona de casa Eugênia Araújo de Sá, de 60 anos, diz sentir “algo estranho” quando passa por ali. “Bate uma dúvida. Será que posso ter algum problema? E para as crianças? Melhor que limpem tudo mesmo, de uma vez”, disse.

A área, industrial nas décadas de 1960 e 1970, é cada vez mais explorada pelo mercado imobiliário ? somente nos arredores do terreno da INB, há três lançamentos residenciais, com até oito torres cada um. O templo católico Mãe de Deus, cuja construção é coordenada pelo padre Marcelo Rossi, fica em terreno vizinho à área contaminada. / VITOR HUGO BRANDALISE

NUCLEMON, um legado de contaminação e morte

19/03/2010
Por Joelma Couto
 
Depósito de lixo radioativo localizado na zona sul de São Paulo está em área densamente povoada e ao lado de futuro templo do padre Marcelo Rossi. Fotos: Fábia Renata.

No dia 23 de fevereiro de 1970, em plena ditadura militar, começa a história do trabalhador José Venâncio Alves. Venâncio,

como é conhecido pelos amigos, a partir desse dia passa a fazer parte do quadro de funcionários da Administração de Produção de Monazita (APM), localizada em um terreno de 20 mil m² na rua Princesa Isabel, 3, no bairro do Brooklin, em São Paulo. A estatal ligada ao programa nuclear brasileiro passaria, em 1975, a chamar-se Nuclebrás Monazita (Nuclemon).

 
Venâncio veio de Itaverava, Minas Gerais. Foi seu cunhado, Aarão, que já estava em São Paulo, que lhe arrumou o emprego. Venâncio, assim como o cunhado, tinha pouco estudo. Era chegar e trabalhar, a empresa não exigia muito e oferecia algumas vantagens, tais como quatro latas de leite por mês para cada filho menor de 10 anos e um botijão de gás por mês. O trabalho não era fácil. Era artesanal, braçal, mas eles não tinham estudo e as dificuldades para encontrar um emprego eram grandes. O importante é que estavam trabalhando. Assim como o cunhado, Venâncio trouxe de Minas outros trabalhadores para a  empresa. Muitos eram os parentes ou conhecidos. Eram uma grande família.
 
O que os trabalhadores da Nuclemon não sabiam é que estavam sendo expostos a substâncias altamente tóxicas e também radioativas. A principal matéria-prima utilizada na usina era a monazita, extraída da areia monazítica, abundante na costa do Rio de Janeiro e da Bahia, e rica em urânio e tório. Na Usina de Santo Amaro (USAN), a areia bruta era beneficiada por meio de dois processos: tratamento químico e tratamento físico. Segundo documento do Centro de Referencia do Trabalhador de Santo Amaro, os produtos produzidos na USAN eram vendidos para indústrias eletrônicas, de alta pressão, de cerâmica e de metalúrgica fina. A monazita é desengraxante, desengordurante e também entra no tratamento de águas de caldeira e industrial, e na formulação de detergentes.
 
A areia monazítica passava por um tratamento químico para obtenção de cloreto de terras raras, gerando um subproduto com alta concentração de urânio e tório conhecido como torta II. A torta II processada também dava origem ao mesotório, produto altamente radioativo.
 
Todo esse trabalho era feito sem proteção. Os trabalhadores não tinham noção dos riscos. Trabalhavam até mesmo de chinelo de dedos, sapatos vulcabrás comprados na lojinha da empresa, não tinham uniformes e a roupa era lavada em casa e misturada com a roupa de toda família. Venâncio se lembra do amigo José Roberto, também de Ituverava. ”O José ficou viúvo, a esposa morreu de câncer. Ele ficou deprimido, começou a ter convulsões. O chefe não ligava, não se importava com o sofrimento do Chameguinho, como era conhecido José Roberto. Ele era ajudante de manutenção, um dia caiu de uma altura de 10 m e ficou muito tempo no hospital. Quando saiu, voltou a trabalhar, mas não tinha mais condições, ficava perambulando pela usina. Tinha que ser aposentado, mas, depois de dois anos, foi mandado embora. Teve que voltar para Minas com seus quatro filhos para ser cuidado pela família, foi um crime o que fizeram com ele.”
 
Segundo a Dra Maria Vera Cruz de Oliveira, médica pneumologista do CRT-SA as condições em que os ex-funcionários da Nuclemon trabalhavam eram absurdas. Estavam expostos a poeira, calor intenso, radioatividade e excesso de trabalho. A falta de protetores de ouvido causou perda de audição em muitos deles. Não havia programa de prevenção de acidentes nem uso de máscaras. No setor conhecido como amassador ocorria a mistura do ácido sulfúrico com o pó da pedra de abrigonita para obtenção, por exemplo, do fosfato de lítio. A fumaça produzida nesse setor era tão forte que, quem tinha que ir por ali era obrigado a passar correndo e sem respirar. Seu Severino da Costa, 73 anos, conta que tem silicose, doença pulmonar, e que descobriu a doença quando ainda estava trabalhando, mas, mesmo assim, foi despedido sem direito a tratamento. Severino trabalhou na empresa por 27 anos.
 
Somente em 1987, após o acidente de Goiânia, os ex-funcionários da Nuclemon começaram a perceber com que tipo de material trabalhavam. Venâncio conta que só então a ficha caiu. Lembra-se que em uma reunião ele sugeriu que a empresa parasse de trabalhar com a monazita, ”meu chefe deu risada, disse que eu estava louco, que a monazita pagava nosso salário e que poderia até mesmo pagar a dívida externa do país”.
 
Ação sindical
Nos idos da década de 1980, o Sindicato dos Químicos de São Paulo se aproximou dos trabalhadores da estatal. Preocupado com as condições de trabalho e a saúde dos trabalhadores, em 1990, o sindicato solicitou ao Centro de Referência do Trabalhador de Santo Amaro que fizesse uma visita à empresa. Os técnicos do CRT-SA encontraram muitas irregularidades e dificuldades. Cientes da gravidade do assunto, o Sindicato dos Químicos convocou uma reunião que teve a presença do CRT-SA, da Delegacia Regional do Trabalho e da Promotoria do Ministério Público Estadual, intensificando assim as ações contra empresa.
 
Em meio a protestos da população e a ações do sindicato, do Ministério Público e da Delegacia Regional do Trabalho, as condições de trabalho começaram a melhorar. A roupa passou a ser lavada e descontaminada na empresa, os funcionários começaram a receber vale-refeição e a freqüentar o CRT-SA, onde começaram a fazer exames e a participar de reuniões que tinham como objetivo discutir as condições e a organização do trabalho na empresa.
 
Em 1991, a Câmara Municipal de São Paulo instaurou uma Comissão Parlamentar de Inquérito para apurar as responsabilidades pela exposição à radiação sofrida pela população de São Paulo, principalmente por trabalhadores, e nas instalações da Nuclemon Minero-Química Ltda.
 
A CPI chegou à conclusão:
 
1 A área da Usina Interlagos (USIN) apresentava contaminação radioativa no solo.
 
2 A Nuclemon, por ter descumprido as normas referentes ao controle de áreas e liberação de material radioativo para o meio ambiente, foi considerada responsável pelos riscos de exposição à radiação e contaminação nos depósitos da av. Interlagos.
 
3 A Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) foi responsável pelos riscos por não ter tomado medidas cabíveis de fiscalização e sanção contra a Nuclemon.
 
4 O armazenamento de rejeitos nucleares na Usina Santo Amaro (USAM) era um risco para os trabalhadores e para a população vizinha.
 
5 A Nuclemon depositou lixo químico (Torta de fosfato trissódico – Torta FTS) ao longo de vários anos no lixão de Perus, Aterro Bandeirantes – representando um risco para os trabalhadores e a população vizinha do aterro. A quantidade total era desconhecida.
 
6 As condições de radioproteção da Nuclemon permaneciam absolutamente ineficientes, gerando exposição à radiação desnecessária aos trabalhadores. Deve ser garantido tratamento médico adequado aos trabalhadores contaminados com a
garantia de sua remuneração.
 
Em 1992 a usina foi desativada por inviabilidade econômica e os trabalhadores foram demitidos ou transferidos para outras unidades.
 
Os Restos da Usan
A Usina de Santo Amaro, localizada na rua Princesa Isabel, no Brooklin, foi derrubada e todo o material levado para a unidade da avenida Interlagos. Em depoimento à Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Câmara dos Deputados, a engenheira civil e de segurança do trabalho e auditora fiscal do Ministério do Trabalho e Emprego em São Paulo, Fernanda Gianassi, afirmou: “Em vez de rasparem o solo e começarem a retirar as camadas mais profundas, viram que havia contaminação profunda e começaram a jogar pedrisco para cobrir o terreno.”
 
O terreno, localizado em uma área muito valorizada, foi vendido e, no local, construído um grande condomínio. A reportagem entrou em contato com a assessoria de imprensa da Comissão Nacional de Energia Nuclear, CNEN, órgão federal responsável pelo licenciamento e fiscalização das instalações nucleares e radioativas brasileiras, para saber a posição da empresa em relação à segurança dos moradores do Brooklin e a resposta foi que, “sobre a posição da CNEN relativa
ao terreno da antiga Nuclemon, no bairro Brooklin, em São Paulo, informamos que a área não oferece riscos ao meio ambiente, trabalhadores da instalação e população em geral. A CNEN faz um monitoramento periódico do local para certificar-se de que os níveis de radiação estão dentro da normalidade, abaixo do estipulado nas normas de segurança da CNEN”.
 
O depósito que guarda os restos das operações da Nuclemon, aproximadamente 1000 (mil) toneladas, fica na esquina da Avenida Interlagos com a Avenida Miguel Yunes. A segurança e a sinalização do local são precárias. As placas que deveriam alertar a população dos riscos são poucas e pequenas. Um exemplo são as placas que indicam que há radiação no local, são pequenas, estão colocadas próximas ao chão e estão sendo cobertas pelo mato. Fernanda Giannasi alerta para o fato de que “pessoas em situação de rua e curiosos frequentemente adentram o terreno, visto que a cerca tem vários pontos abertos”.
 
Segundo Sérgio Dialetachi, especialista em energia nuclear, consultor da Fundação Heinrich Boell, do PV alemão para assuntos de energia e clima, “a terra fora do galpão está contaminada com radioatividade. Pode até ser baixa, mas não há garantias de que não faça mal a quem se expõe a ela, tudo depende do organismo. Não há limite seguro quando se fala de energia nuclear”.
 
Há grande preocupação com a presença do depósito na região. Quando foi criado, a população no entorno era pequena. Hoje, a expansão imobiliária passa pela região. Ao lado do terreno onde estão estocados toneladas de material radioativo está sendo construída a nova igreja do padre Marcelo Rossi, que será visitado por milhares de romeiros mensalmente, assim como vários condomínios residenciais. Outro fato que chama a atenção é o de que muitas pessoas que moram ou trabalham na região não sabem da existência do depósito, não recebem informações e não têm conhecimento de como proceder em caso de acidente.
 
Segundo Sérgio Dialetachi, a fiscalização do local é precária, mas já foi pior. Aproximadamente 1000 (mil) toneladas deveriam ter sido retiradas do local há 13 anos, porém, a falta de um depósito definitivo faz com que a população da cidade de São Paulo tenha que conviver com uma bomba-relógio que pode explodir a qualquer momento. Segundo Fernanda Giannasi, o local é impróprio, coloca em risco a população, o meio ambiente e os próprios trabalhadores do depósito.
 
Joelma Couto é jornalista