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Radiação e seus riscos são foco de estudos

13/09/2010

Ter, 31 Ago, 04h30

Quando a Dra. Deborah Rhodes pede um exame diagnóstico que envolve radiação, ela consulta um gráfico em seu consultório que lista a quantidade de exposição à radiação em cada exame.

Ela leva em conta o total das exposições do paciente no passado e então avalia cuidadosamente os riscos e benefícios de cada exame – e qualquer abordagem alternativa que possa ser considerada.

Dois novos estudos, que aparecem na edição de terça-feira da revista “Radiology”, sugerem que mais médicos deveriam adotar essa prática.

Um estudo descobriu que certos exames de imagens das mamas de base nuclear, que envolvem injetar material radioativo nos pacientes, expõe as mulheres a doses muitos mais altas de radiação do que uma mamografia comum, elevando seu risco de desenvolver câncer em órgãos vulneráveis além das mamas, como rins, bexiga ou ovários.

No total, a dose anual de radiação em procedimentos médicos para a população dos Estados Unidos aumentou sete vezes entre 1980 e 2006, relata um segundo artigo.

“Tenho fobia de radiação – posso dizer isso em alto e bom tom”, afirmou Rhodes, médica da Mayo Clinic que está realizando pesquisas para desenvolver tecnologias de exames que exijam menor exposição do paciente à radiação.

“Fico monitorando constantemente as doses de radiação em meus pacientes”.

Infelizmente, segundo ela, “isso não é muito bem compreendido, não apenas pelo público, mas pelos médicos que solicitam os exames”.

R. Edward Hendrick, médico que estudou os exames de mamas por imagens durante quase 30 anos, disse estar motivado a quantificar a exposição a radiação nas tecnologias nucleares de imagens de mamas num artigo público, graças a preocupações similares.

“Eu ia ao encontro internacional das mamas e em grandes encontros de radiologia, e ninguém fazia ideia de quais eram as doses e os riscos”, afirmou Hendrick.

“Eles estão tratando todos os exames como se as doses e os riscos fossem todos iguais aos de uma mamografia, e a verdade é que eles representam um risco muito, mas muito maior.

A finalidade do artigo era dizer que nem todos os procedimentos de diagnóstico por imagem em mamas têm riscos e doses comparáveis”.

Hendrick, professor de radiologia na Escola de Medicina da Universidade de Colorado-Denver em Aurora, Colorado, é consultor da GE Healthcare em assuntos relacionados à tomossíntese digital das mamas, outra técnica de diagnóstico por imagens das mamas, e está no conselho médico da Koning e da Bracco, que fabricam outras tecnologias de diagnóstico por imagem.

As tecnologias nucleares BSGI (da sigla em inglês para imagens gama específicas para as mamas) e PEM (sigla em inglês para mamografia por emissão de pósitrons) devem ser usadas como complementos ou adjuntos à mamografia e ao ultra-som, já que existe a preocupação sobre uma lesão cancerosa, e não para testes de rotina.

Essas tecnologias também são mais úteis em mulheres que possuem o tecido dos seios bastante denso, caso em que a mamografia não gera imagens claras.

Porém, um exame BSGI ou PEM expõe os pacientes a um risco de câncer induzido por radiação que é comparável ao risco de uma vida inteira de mamografias anuais começando aos 40 anos, segundo o estudo de Hendrick.

Enquanto a mamografia representa um risco médio de induzir 1,3 cânceres fatais a cada 100 mil mulheres aos 40 anos, estimou-se que um único exame BSGI envolve um risco de 20 a 30 vezes maior em mulheres da mesma faixa etária, e o risco de um PEM individual era 23 vezes maior.

Além disso, a mamografia só eleva os riscos de câncer de mama, enquanto o BSGI e o PEM aumentam o risco em outros órgãos, como intestinos, rins, bexiga, vesícula biliar, ovários e cólon, dizia o estudo.

Há também um temor de que o uso das tecnologias de imagens se torne mais disseminado e casual.

“BSGI e PEM são ótimas ferramentas para solucionar problemas, se você tem um paciente com uma mamografia anormal e não está muito seguro”, disse Rhodes.

“O problema é que esses exames já estão sendo considerados e até mesmo usados como exames de prevenção, e isso não é apropriado”.

“Não estou dizendo que não façam o exame, estou apenas dizendo para não solicitarem esse exame da forma descompromissada como se pede um exame de ultra-som'”, disse Hendrick.

Em outro artigo na mesma edição da revista “Radiology”, William R. Hendee, respeitado professor de radiologia, oncologia de radiação, biofísica e bioética do Medical College of Wisconsin, em Milwaukee, convocou os radiologistas para conduzir uma campanha pela redução do uso exagerado de tecnologias de imagens que expõem o paciente a radiação sem necessidade e, no processo, elevam o custo da saúde.

Propostas sugeridas para conter o uso excessivo de tecnologias de imagens incluem o desenvolvimento de critérios nacionais, e baseados em evidências, de adequação para o uso dos exames, educando médicos relacionais e o público, desacelerando a prática médica da auto-orientação e encontrando maneiras de reduzir os exames duplicados.

As empresas que fazem os dois exames de imagens de mamas com base nuclear não argumentaram sobre a avaliação da exposição à radiação, mas afirmaram que a comparação com a mamografia – que expõe pacientes a níveis muito baixos de radiação, equivalentes e cerca de dois meses de radiação natural do ambiente – foi inapropriada, já que os exames são usados de forma distinta.

“A comparação com a mamografia é mais ou menos como comparar maçãs e laranjas”, disse Doug Kieper, vice-presidente de ciência e tecnologia da Dilon Technologies Inc., que desenvolveu a tecnologia BSGI.

“Nosso exame não está sendo usado como um procedimento preventivo para a população geral, assintomática, que não possui nenhuma indicação de doença”.

Ele acrescentou que já havia estudos sendo conduzidos para tentar obter os mesmos resultados usando doses mais baixas de radiação.

Guillaume Bailliard, vice-presidente de marketing da Naviscan, que fabrica o leitor PEM, disse que o produto nunca deveria ser usado como ferramenta para exames de rotina.

“É verdade que o PEM oferece uma dose mais alta que a mamografia”, disse ele, “mas os médicos devem avaliar os riscos e benefícios ao tomar decisões”.

© 2010 New York Times News Service

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Pesquisadora aponta risco do exagero com radiação

08/09/2010

Eliano Jorge
O avanço da Medicina também atenta contra a saúde. Pelo menos, nos tratamentos com radiação, o perigo é grande, na opinião da professora Emico Okuno, do Departamento de Física Nuclear do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP).
– Aumentou terrivelmente a dose (de radiação) nas pessoas devido à tumografia computadorizada, que o mundo inteiro começou a tirar a torto e a direito. Aumentou tremendamente a dose na população como um todo, nos últimos 10 anos – adverte a pesquisadora em dosimetria das radiações.
Ela dedicou um capítulo inteiro sobre este assunto no livro Físicas das Radiações (Oficina de Textos, 2010), escrito em parceria com a colega Elisabeth Mateus Yoshimura e lançado há duas semanas. Nele, conta, estão publicadas observações pioneiras no Brasil, sobre fundamentos, aplicações e efeitos biológicos.
– É meio pra alertar pessoas que usam radiações talvez até indevidamente, para tirar radiografia de tudo quanto é coisa, exames de Medicina Nuclear com exageros – afirma Emico em entrevista a Terra Magazine.
O risco não se limita a apenas recorrer habitualmente à radiação. “A questão não é frequência, é dose mesmo. A cada vez que você faz uma imagem, a pessoa está levando uma dose, e a radiação causa dano no DNA. E o dano, se não for corrigido, permanece. O próprio organismo tem mecanismos de correção. Acontece que, se produzir um número muito grande de danos, de repente não se faz a correção de um dano que sobrou lá, e ele se soma a outro posterior. De radiografia de pulmão, por exemplo. Depois de algumas dezenas de anos, você descobre que tem um câncer”, analisa.
Os estudos nesta área trazem registros esclarecedores de mais de 60 anos. “Está perfeitamente bem documentado o que se sabe a partir de sobreviventes de (explosões atômicas em) Hiroshima e Nagasaki, o que aconteceu com pessoas que levaram tantas doses (de radiação). Que estavam em determinada região, perto, longe, no hipocentro. Tem toda uma estatística, as pessoas estão sendo ainda acompanhadas, e os próximos 20 anos vão acompanhar os filhos dos descendentes. E nos outros 40 anos, os netos dos descendentes, para ver como está se propagando isso porque tem os efeitos hereditários”, diz a doutora em Física, com experiência em instituições estrangeiras.
Ela aproveita para diferenciar as fontes de emissão. “Telefone celular é outra coisa, não tem nada a ver. Estamos falando de radiações ionizantes, raio-x, radiação gama, radiações emitidas por elementos radionuclídeos. E há radiações não-ionizantes, que são radiações ultravioleta, luz visível, infravermelho, micro-ondas, que é o caso de celulares. Isto é uma outra conversa”.
Ainda Chernobil
Nas últimas semanas, noticiou-se a possibilidade de incêndios florestais atingirem usinas nucleares na Rússia e na Ucrânia. “Para o incêndio chegar, é preciso ter mata em volta, e não acredito muito que haja. Em geral, é uma área isolada”, comenta Emico Okuno.
“Depende da parede de contenção do próprio reator nuclear. A de Chernobil não era adequada, por isso deu uma explosão e foi tudo para fora”, explica, referindo-se à central nuclear ucraniana que espalhou material radioativo após uma explosão, em 1986.
Aquele foi o pior acidente nuclear na história. “Pegou o hemisfério norte praticamente todo, Europa principalmente. Mais nas regiões próximas ao reator. A Polônia foi altamente contaminada. O material radioativo foi pra atmosfera, o vento a carregou pra lá e pra cá. Onde choveu foi mais contaminado. O material não só chegou ao solo como nas folhas, na grama. E contaminou as vacas, que, por sua vez, produziram leite contaminado”, descreve a pesquisadora.
Na sua avaliação, um eventual incêndio na área de Chernobil agora não provocaria novos desastres. “Acredito que não espalhe muito a contaminação, que a essa altura deve estar no solo, porque com a chuva os radioisótopos devem ter caído para o solo e se aprofundado nele. Aliás, o radioisótopo mais importante é o césio-137, o mesmo que causou o acidente de Goiânia (em 1987)”, diz Emico.
Ainda há casos de animais contaminados por radioatividade de Chernobil, 24 anos depois, na Alemanha, que não tem fronteira com a Ucrânia.
– Talvez os frutos das árvores estejam contaminados e eles podem ser os responsáveis pela contaminação, se for o caso de espalhar com o incêndio. Em geral, a contaminação ocorre com cogumelos, líquens, morangos ou alguns vegetais que os javalis comem. Mas a contaminação vem do solo para a planta. Alguns vegetais podem ter mais facilidade para incorporar o césio – comenta a professora.
Não há perspectiva de recuperação das áreas atingidas pela energia nuclear. “O fim da radioatividade no lugar pode ser longuíssimo, de várias centenas de anos. E o fato de um dado local estar mais contaminado é por causa dos radionuclídeos que foram para o espaço durante o acidente, levados pelo vento e que acabaram caindo com a chuva. Então, entre um local e outro, pode haver uma diferença muito grande de contaminação do solo”, detalha Emico Okuno.
Nem sempre a catástrofe atômica é acidental. “Os americanos fizeram 66 explosões com testes nucleares, de 1946 a 1958, no arquipélago das Ilhas Marshall, principalmente no Atol de Biquíni”, lembra a professora. “A população desse atol foi levada para outra ilha, e eles tentaram a volta para o lar em 1972, mas tiveram que desistir porque o solo estava contaminado e os alimentos, como caranguejo, fruta-pão e coco, estavam com quantidade razoável de césio-137. Outra tentativa de retorno ocorreu em 1978”, acrescenta.

Cobalto na sacola de compras

07/07/2010

Uma equipe do Greenpeace vem fazendo visitas constantes ao mercado de quinquilharias de Mayapuri, cidade de Nova Déli, na Índia. E não é para fazer compras. De medidores de radiação em punho, eles checaram – e comprovaram – que os níveis de contaminação na área estão muito acima do recomendado.

As checagens começaram após morte de um funcionário do mercado por exposição à radiação no mês passado. Segundo as autoridades indianas, o problema veio de uma pastilha contendo Cobalto 60, material altamente radioativo, que teria sido vendida pela Universidade de Déli, como ferro-velho, no mercado.

A área chegou a sofrer um trabalho de limpeza após a denúncia do Greenpeace, mas nova visita ao local revelou que os traços de radiação ainda são fortes. O contato com material radioativo causa uma série de doenças, além de mortes imediatas por Síndrome Aguda de Radiação – SAR.

O caso lembra o maior acidente radioativo do mundo, que ocorreu no Brasil. Conhecido como Césio 137, em referência ao material radioativo que vazou de um aparelho radiológico jogado fora em ferro-velho de Goiânia (GO), o acidente ocasionou diversas mortes por SAR.

Para saber mais, acesse site criado em 2007, em homenagem aos 20 anos do acidente.