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Observatório de Itacuruba: uma obra inacabada

08/09/2011

Heitor Scalambrini Costa

Professor da Universidade Federal de Pernambuco

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(fonte: http://www.blogdomagno.com.br)

Há 23 anos, a cidade de Itacuruba localizada no meio da caatinga pernambucana foi inundada pelas águas do Rio São Francisco para a construção da barragem de Itaparica. Os moradores foram transferidos para a nova Itacuruba, uma espécie de cidade cenográfica a cerca de 481 km de Recife, com uma população de pouco mais de 4 mil habitantes, vivendo quase que exclusivamente dos empregos que a Prefeitura Municipal oferece. Na área rural plantam para sobreviver feijão, cebola, tomate e melancia.

A Itacuruba de hoje se encontra situada no Sertão do Moxotó de Pernambuco, no sub-médio São Francisco na micro-região de Itaparica. Com 8° 48′ de latitude sul, 38° 41′ longitude oeste, e altitude 316 m; a cidade possui uma área de 437 km², tendo seus limites geográficos ao Norte com a cidade de Belém do São Francisco; ao Sul com a cidade de Rodelas na Bahia; ao Leste com a cidade de Floresta; e a Oeste novamente com a cidade de Belém do São Francisco. Pertence ao semi-árido pernambucano, com uma temperatura média anual de 27°C, cujo acesso é realizado pelas rodovias BR 232, BR110, PE 360, BR 316 e PE 422.
Minha visita a Itacuruba se deu em função da proposta de instalação de uma usina nuclear naquela região, e o interesse em conhecer o local, seu povo, sua gente, e o que pensam de tal empreendimento. Nesta oportunidade o que também me chamou a atenção foi a promessa de a cidade abrigar um centro de pesquisas astronômicas.

No papel é um projeto ambicioso proposto para ser um verdadeiro diferencial do segmento turístico-científico, e no desenvolvimento da astronomia no nordeste. A promessa com este projeto seria de tornar a cidade uma referência no turismo pedagógico, e assim atrair alunos e professores de vários estados, dinamizando sua economia. O local escolhido está situado a oito quilômetros da cidade, no Morro da Serrinha, em uma área de 5 ha. O acesso é por meio de uma estrada não asfaltada, que se encontra extremamente prejudicada pelo processo de erosão em vários trechos. Não há sinalização que oriente o visitante até o local, o que tornou necessário a ajuda de um nativo da cidade para ser nosso guia.

O estudo sobre a cidade abrigar um centro de estudos astronômicos ocorreu por iniciativa do Observatório Nacional (ON), e começou a ser desenvolvido em 1996. A escolha de Itacuruba foi pelos baixos índices pluviométricos que apresenta, pela pouca poluição luminosa noturna, e pela excelente transparência do ar. Além da instalação do Observatório Astronômico Automatizado (OAA), está planejado o observatório solar, e a instalação do telescópio magnético, este subordinado à Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

O que verificamos nesta visita é uma situação bem diferente do que é propagandeado e anunciado na mídia. Existe atualmente no local duas construções, espaçadas e não muito distantes entre si (uns 500 metros), completamente abandonadas, cujas obras estão interrompidas desde 2008. Uma situada na parte mais alta, com uma visão panorâmica sobre toda região, aparentando ser o local para abrigar o telescópio principal, cujo prédio foi construído em uma base sólida que compreende o lajedo natural da serra. Já a outra construção situa-se na entrada da área, aparentando ser uma edificação destinada ao acolhimento dos visitantes. Quando de minha visita em 27/8/2011, as estruturas de alvenaria de ambas as construções necessitavam de manutenção, e contavam com vegetação crescente nos seus entornos e nos interiores.

Em outro local totalmente cercado, dentro desta área maior está localizado o OAA e uma construção de apoio. O projeto do ON, cujo nome formal é IMPACTON (Iniciativa de Mapeamento e Pesquisa de Asteróides nas Cercanias da Terra do Observatório Nacional) está em funcionamento desde o inicio deste ano. Não é aberto a leigos, nem a turistas, já que se trata de uma construção destinada à pesquisa cientifica.

Com a construção do OAA, avalia-se a trajetória de asteróides e cometas que possam atingir a superfície da Terra, e integra o Programa Internacional de Observação e Monitoramento de Quedas. Este telescópio permite que os astrônomos digitem a posição do céu que querem olhar no teclado do computador, é automaticamente o telescópio é direcionado. Faz imagens daquele ponto, e em pouco tempo o cientista recebe o resultado na tela do computador. Seu trabalho é estudar aquilo que o telescópio enxergou no espaço. Essa nova forma de observação permite, por exemplo, que um astrônomo que esteja no Rio de Janeiro possa enviar seu pedido ao centro de observação de Itacuruba sem estar lá. A ordem vai pelo computador e a resposta também vem por ele.

Mesmo com as obras do complexo astronômico paralisadas desde 2008, já nesta época as autoridades municipais e estaduais anunciavam que estavam praticamente prontas, restando apenas alguns detalhes para abrir totalmente à visitação pública. Em 5/2/2011 o governador do Estado esteve em Itacuruba, com toda pompa, e com a população nas ruas assinou convênios e deu ordem de serviços para diversas obras, inclusive prometendo (mais uma vez) apoio ao projeto do observatório. Também em recente reportagem no DP de 27/3/2011, novamente promessas foram requentadas, sendo agora afirmado pelos gestores públicos que a conclusão das obras deve ocorrer até dezembro de 2012.

Mais uma vez se repetem as promessas dos governantes (semelhante a que está sendo feito para justificar e obter o apoio da população para a construção da usina nuclear) com as palavras mágicas de trazer o progresso para a região, gerar emprego e renda. Ilude-se toda uma população já tão sacrificada, desestimulada e depressiva, como se constatou em recente trabalho investigativo do jornalista Eduardo Machado publicado no Jornal do Comercio intitulado “Itacuruba: a terra dos deprimidos” (JC 21/08/2011), desnudando a real situação do município, onde mais de 1/3 da população adulta toma medicamentos psicotrópicos para amenizar a depressão, e onde o número de suicídios na cidade ultrapassa em 4 vezes a média nacional.

A decepção e frustração por promessas não cumpridas são grandes, e lamentavelmente usadas como instrumento de marketing político dos governos municipal, estadual e federal. Não só a população local, mas também os cidadãos e as cidadãs deste Estado estão indignados com as obras inacabadas que se arrastam indefinidamente, como a do Observatório de Itacuruba.

População de Caetité realiza manifestação e impede entrada de carretas para a INB

16/05/2011

Depois dos comentários de que estavam sendo enviados para o município de Caetité uma carga contendo lixo radioativo, a população montou guarda na Avenida que dá acesso às Indústrias Nucleares do Brasil – INB e impediu a passagem do comboio que chegou ao município no início da noite deste domingo. Mais de 3.000 pessoas formaram uma barreira humana para impedir que as 13 carretas tivessem acesso ao destino. A Polícia Federal que escoltava o comboio nada pode fazer e a carga foi desviada para Guanambi, onde aguarda uma posição, no pátio do Batalhão de Polícia Militar. Gritando palavras de ordem, a população exibia cartazes, faixas e gritavam que “Caetité não é depósito de lixo”, pedindo uma posição do Prefeito. O Prefeito do Município Zé Barreira, chegou ao local por volta da 9 da noite e no depoimento dado à imprensa e no carro de som que estava no local, foi contraditório e recebeu vaias. Inicialmente o Prefeito assumiu que não sabia da chegada dessa carga e em seguida alegou que a INB tinha a autorização do IBAMA. Questionado pelo Padre da Paróquia de Caetité, Padre Osvaldino, que exigiu do Prefeito a garantia de que a carga não seria depositada no município, o Prefeito se esquivou, dizendo que “primeiro teria que se reunir com sua Assessoria Jurídica para uma posição”.

Mesmo depois que as carretas foram encaminhadas para Guanambi, populares continuaram montando virgília no local para impedir que o transporte fosse feito na calada da noite. O vereador Álvaro Montenegro também vaiado, chegou a agredir um menor com empurrões.

O PREFEITO ERA O ÚNICO QUE NÃO SABIA

Se a população sabia da carga e montou barreira para impedir sua passagem, o Prefeito não sabia? E se o Prefeito não sabia da carga, como sabe que a INB tem autorização do IBAMA? Estranho para quem é funcionário da INB há anos e mantém um relacionamento estreito com a direção da empresa.

A CARGA

Há suspeitas de que esta carga é a mesma que saiu da cidade de Poços de Caldas – MG, na década de 1990, sendo destinada a São Paulo para ser utilizada pela Marinha Brasileira em um projeto de submarino nuclear. Segundo ainda informações extra-oficiais, esse material, após ser utilizado no projeto, ficou confinado em algum lugar da capital paulista (na região de Interlagos), até a liberação para ser encaminhada de volta para Poços de Caldas. No período em que esta mesma carga seria enviada de volta àquela cidade, no ano 2000, o então Governador de Minas Gerais, Dr. Itamar Franco, proibiu a entrada da carga radioativa no Estado, inclusive colocando um helicóptero para sobrevoar a área da INB, proibindo a entrada ou saída de quaisquer caminhões com contêineres.

Reportagem Jó Oliveira

http://www.icaetite.com.br/?lk=4&id=7570

Confira as fotos:

Pequeno relato de um grande trabalho

18/04/2011

 

Um grande amigo meu, em ato louvável de soliidariedade e humanidade, resolveu com sua família ajudar os atingidos pela enchente em Itaipava. Conversamos por telefone e os relatos dessa experiência são muito fortes. Na segurança e conforto dos nossos lares e na correria de nossas rotinas, nunca imaginaremos a dor e sofrimento pelo qual essas famílias passaram e ainda estão a passar. São vítimas de um planejamento desordenado, de um sistema egoísta e corrupto, onde as pessoas só olham para o seu umbigo.

Mas independente do contexto, a mensagem dele serve para refletirmos sobre tudo o que temos e o valor que damos a isso. Segue seu email, enviado para sua rede de contatos.

Relatos de heróis de Itaipava

Olá, tudo certo?

Primeiramente gostaria de agradecer a todos que de alguma maneira se envolveram em ajuda das vitimas das tragédias ocorridas com nossos irmãos da região Serrana do Rio de Janeiro. Como alguns sabem, me envolvi de uma maneira mais efetiva, afinal, sou nascido e criado em Itaipava, a poucos quilômetros de onde ocorreram muitos problemas. Pedi a ajuda de muitos, e fomos atendidos com uma grana que nos ajudou a amenizar a dor de alguns, com a produção de cestas básicas, montagem de kits para crianças, etc.

Arrecadamos algo em torno de 4000 mil reais, graças a vcs e produzimos cestas em número indeterminado, devido ao trabalho intenso. Além de todas as roupas e alimentos doados.

Mas não vim aqui trazer números. A pedido de um grande amigo, que se emocionou com algumas histórias que lhe contei, resolvei compartilhar alguns relatos que muito me marcaram nesse trabalho, e que acho que será de grande valia para todos. Algumas lições de vida, de heróis que a gente nem imagina que existam, que vi e ouvi, e que me fizeram pensar o quanto sou uma pessoa realizada, livre de problemas e cheia de sucessos. E também o de repensar qual o meu papel nesse mundo…

Em um abrigo, numa Igreja, no Vale do Cuiabá, chegamos para conversar com um grupo de pessoas que haviam perdido tudo com os temporais. E uma moça me contou como foi todo o acontecido. Ela dizia:

"Estávamos em casa eu meus filhos, meu irmão em minha mãe. Do nada, ouvimos a chuva começar de forma muito intensa, e raios, e trovões que parecia bater no telhado! A água subiu de maneira mito rápida. Já estávamos sem luz, e começamos a ouvir muita água chegando, como se tivessem uma cachoeira se formando no nosso quintal. Aí as barreiras começaram a cair por cima das casas. Um pedaço da parede caiu sobre a minha perna, mas consegui escapar e agarrar meu menino. Saímos para o telhado, e começamos a subir um barranco. Gritávamos pelos outros,mas não víamos mais nada! Apenas quando batiam os raios, aí dava pra ver para onde tínhamos que fugir. Parecia um filme de terror, pois ao mesmo tempo ouvíamos pessoas gritando ao longe, ouvíamos um som de correnteza muito forte e coisas batendo. Sabia que minha familia estava morta, e só restava tentar me salvar e ao meu filho. E estamos aqui…"

Outro relato é de uma senhora que perdeu tudo no mesmo local, inclusive sua familia. De sua casa não sobrou nada, apenas a estrutura, coberta e cheia de lama. Todos os dias que fomos lá, ela estava com sua enxada removendo lama, sem, aparentemente,muito o que procurar. Ao chegar a ela, perguntávamos o que ela necessitava, o que ela queria. E ela dizia que não queria nada, apenas água e um pouco de comida. Alguns dia depois, perguntamos a ela o que ela tanto procurava, se eram eletrodomésticos, móveis, ou algo que pudéssemos comprar ou pedir. Ela então respondeu: "O que estou procurando são fotos de meus filhos e netos, pois já que eu os perdi, não quero esquecer como eles eram. Quero poder lembrar deles para sempre…".

Tem muito mais coisa, muitas histórias… Mas acho que já atingi meu objetivo. Foram relatos e vivências que tive com meus pais e amigos de Itaipava e que me fizeram pensar um pouco mais sobre minha vida e pensar muito bem antes de reclamar da mesma. Então achei justo compartilhar essas experiências com todos. Não estou querendo dar lição de moral, nem dizer como cada um deve agir. São apenas fatos que espero que façam com que a humildade e a solidariedade bata no coração de todos, como fizeram comigo. Tirem-nas como exemplos de vida, um exemplos a serem seguidos, antes de reclamar do trânsito, do trabalho, do irmão, da mãe. Pelo menos, temos isso tudo…

Abraços, beijos, muita luz e energia para todos!!

Rodrigo Amaro