Posts Tagged ‘Irã’

Site de humor israelense ironiza envolvimento de Lula em polêmica nuclear

15/06/2010

Rio – Um vídeo com fortes críticas ao papel de Lula no acordo nuclear firmado entre Brasil, Turquia e Irã, está chamando a atenção na internet. Entre as versões sem legendas, legendadas em português e em inglês, a quantidade de visualizações passava de 300 mil na tarde desta quinta-feira.

O vídeo foi produzido pelo site humorístico israelense Latma, de tendência direitista, logo depois do acordo para enriquecimento de parte do urânio iraniano em solo turco. As imagens trazem um ator imitando Lula e cercado de mulheres, cantando uma versão, em hebraico, da música ” Casa de Bamba”. O personagem é entrevistado por dois apresentadores de uma noticiário fictício.

Apesar de um tom amistoso, quando eles dizem que admiram o Brasil por seu futebol, sua música e pelas pessoas, eles disparam críticas ferozes ao afirmar que Lula  “não entende de mediação internacional”, principalmente no Oriente Médio. Em certo momento, eles chegam perguntam ao “presidente”: “por que o senhor está se metendo onde não é chamado?”.

Na paródia da música de Martinho da Vila, eles ainda provocamcom trechos onde o suposto Lula diz que “exibir-se é uma diversão“. Talvez um dos momentos mais polêmicos do vídeo seja quando o ator que interpreta o presidente brasileiro diz que se envolve na questão do urânio porque assim “todos vão pensar que ele tem um cérebro”.

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Diplomacia de linhas tortas

09/06/2010

O Globo – 01/06/2010

O governo brasileiro continua apostando numa linha de confronto com os Estados Unidos na questão do Irã. A secretária americana de Estado, Hillary Clinton, classificou de “sérias” as divergências entre os dois países sobre o programa nuclear iraniano. E afirmou que o acordo obtido por Brasil e Turquia em Teerã torna o mundo, não menos, mas sim mais perigoso. Um relatório da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), ontem divulgado, confirma a tese ao estimar que os iranianos teriam, no momento, combustível nuclear suficiente para produzir duas bombas nucleares.

As autoridades brasileiras fazem questão de manifestar publicamente suas discordâncias com Washington. Ao receber em Brasília o primeiro-ministro da Turquia, Recep Erdogan, seu parceiro na empreitada iraniana, Lula disse que as potências, como EUA e Rússia, não aceitam o acordo intermediado por ele e Erdogan junto ao presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, porque “nós fizemos o que eles estão tentando fazer há muitos anos e não conseguiram”. Erdogan foi ainda mais direto e chamou de “invejosos” os que criticam a ação dos dois países.

Ainda ontem, no Rio, Lula voltou ao assunto de forma a desdenhar da posição americana, que é a de insistir na necessidade de sanções ao Irã por considerar insuficientes os termos do acordo negociado por Brasil e Turquia:

– Quando o Irã topa sentar à mesa, eles (os EUA) falam: “Não vale mais.” Não é possível fazer política internacional se não houver respeito mútuo nas nossas relações – declarou.

É lícito e, mais do que isso, desejável que o governo brasileiro procure abrir novos espaços de negociação, à medida que trabalha para aumentar o peso internacional do país. É compreensível que Brasil e EUA tenham divergências. Mas é preciso tato, bom senso e responsabilidade no encaminhamento dessas questões.

Tudo isso tem faltado ao governo brasileiro. Faltaram tato e bom senso porque se tornou claro que os dois países trilhavam um rumo desaconselhado pelos EUA, que nunca acreditaram, com razão, na sinceridade do Irã. Faltou responsabilidade porque o acordo do dia 17, em Teerã, deu ao Irã mais espaço para continuar ganhando tempo e ampliando sua capacidade nuclear.

A reação de desagrado do Brasil e da Turquia se deve ao fato de, no dia seguinte à assinatura do acordo, os EUA terem anunciado um entendimento com os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU (inclusive China e Rússia) para aplicar a quarta rodada de sanções ao Irã. A resolução está sob exame dos membros do Conselho, que atualmente inclui Brasil e Turquia.

Uma das razões de divergência entre Brasil e EUA está ainda na interpretação de uma carta enviada pelo presidente Obama dia 20 de abril a Lula. Para Washington, ela alertava para os riscos de um acordo com o Irã. Para Brasília, incentivava o acordo que o país e a Turquia acabaram fechando em Teerã.

A diplomacia brasileira só leu os trechos da carta que lhe interessavam. E isto, infelizmente, solapa a posição que o país sempre desfrutou como um interlocutor confiável nas negociações internacionais, em nome de um esquerdismo ultrapassado e fora de contexto.

Apontar para quem?

08/06/2010

Do blog de Alon:

A presença brasileira no imbróglio alavancou o noticiário aqui sobre a crise em torno do projeto nuclear iraniano. Menos badalada, outra confusão forma-se no Extremo Oriente, entre as duas Coreias. A do Sul acusa a do Norte de ter afundado um navio militar.
As Coreias estão tecnicamente em estado de beligerância desde o conflito dos anos 1950. Ele acabou num armistício, mas nunca chegou a haver acordo de paz.
Por que há duas Coreias? O arranjo vem do fim da Segunda Guerra Mundial. Entre os entendimentos das grandes potências, um previa que derrotada a Alemanha Nazista a União Soviética entraria efetivamente em guerra contra o Japão. E a península coreana seria compartilhada por americanos e soviéticos.
A cristalização da Guerra Fria transformou a península em zona de grande tensão e criou uma divisão nacional que o Norte, governado pelo Partido Comunista, jamais aceitou. E o Norte tentou resolver o assunto à força, invadindo o Sul. Quase conseguiu. Ocupou praticamente todo o vizinho.
No pedaço de chão que sobrou, tropas americanas e outras, sob a bandeira da ONU, desembarcaram e empurraram os norte-coreanos para bem além da separação original. Os militares dos Estados Unidos chegaram à fronteira com a China, ameaçando unificar a península sob a batuta do Sul.
Mas aí os chineses, já governados por Mao Tsé-Tung, não acharam graça e entraram na guerra, empurrando os americanos para os limites de 1950. Aí o conflito parou. Morreram uns 800 mil do lado aliado e 1,5 milhão do lado sino-norte-coreano. Para que tudo ficasse como estava antes de a bagunça estourar.
A divisão das Coreias sobreviveu ao fim da Guerra Fria, também porque a existência do Norte é um vetor de equilíbrio regional entre chineses e americanos. E porque o Norte investe maciçamente em força militar como elemento estabilizador do status quo. E do poder dominante ali.
Paradoxal é que a militarização do Norte e a ameaça permanente de conflito acabam consolidando a presença americana. É mais ou menos o que acontece no Oriente Médio, onde a potencial nuclearização do Irã abre caminho para reforçar estrategicamente o papel da Casa Branca.
Já escrevi que nunca antes o movimento nacional palestino esteve tão limitado às opções políticas de Washington. E a escalada da presença americana no Levante será a resposta “natural” à persistência de um Irã ameaçador para os aliados dos Estados Unidos. Fala-se de Israel, mas este tem mais meios do que os vizinhos árabes para defender-se dos iranianos.
Um cenário de paz duradoura no Extremo Oriente e no Oriente Médio levaria à integração econômica de cada região e à redução da necessidade de alinhamentos — ou de intervenção externa. Mas não é o que se delineia.
Na Coreia do Norte e no Irã, a militarização e o fechamento político parecem ser a resposta de grupos voltados unicamente a manter-se no poder, incapazes de proporcionar bem-estar a seus povos ou de sobreviver num ambiente de democracia. E toda ação traz junto reação.
Na América do Sul temos a vantagem de não haver até o momento situações como a do Irã ou a da Coreia, do contrário haveria obstáculos intransponíveis à integração regional.
Eis uma variável que os apologistas da bomba brasileira deveriam levar em consideração: como nas duas regiões citadas, se alguma nação daqui evoluísse para o produção da bomba atrairia imediatamente para cá os Estados Unidos de maneira decisiva. Ainda mais decisiva do que hoje.
Numa América do Sul democrática, pluralista e completamente livre das armas de destruição em massa a liderança brasileira é natural, pelo peso específico em território, população e economia. Numa outra situação, não seria.
Ficaríamos os sulamericanos mais parecidos com as áreas atuais de conflito. Aliás, ainda sobre este assunto, todo mundo que busca armas nucleares é para apontá-las em direção a alguém. Com objetivos expansionistas ou dissuasórios.
E nós, apontaríamos nossos mísseis nucleares para quem?