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Diplomacia de linhas tortas

09/06/2010

O Globo – 01/06/2010

O governo brasileiro continua apostando numa linha de confronto com os Estados Unidos na questão do Irã. A secretária americana de Estado, Hillary Clinton, classificou de “sérias” as divergências entre os dois países sobre o programa nuclear iraniano. E afirmou que o acordo obtido por Brasil e Turquia em Teerã torna o mundo, não menos, mas sim mais perigoso. Um relatório da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), ontem divulgado, confirma a tese ao estimar que os iranianos teriam, no momento, combustível nuclear suficiente para produzir duas bombas nucleares.

As autoridades brasileiras fazem questão de manifestar publicamente suas discordâncias com Washington. Ao receber em Brasília o primeiro-ministro da Turquia, Recep Erdogan, seu parceiro na empreitada iraniana, Lula disse que as potências, como EUA e Rússia, não aceitam o acordo intermediado por ele e Erdogan junto ao presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, porque “nós fizemos o que eles estão tentando fazer há muitos anos e não conseguiram”. Erdogan foi ainda mais direto e chamou de “invejosos” os que criticam a ação dos dois países.

Ainda ontem, no Rio, Lula voltou ao assunto de forma a desdenhar da posição americana, que é a de insistir na necessidade de sanções ao Irã por considerar insuficientes os termos do acordo negociado por Brasil e Turquia:

– Quando o Irã topa sentar à mesa, eles (os EUA) falam: “Não vale mais.” Não é possível fazer política internacional se não houver respeito mútuo nas nossas relações – declarou.

É lícito e, mais do que isso, desejável que o governo brasileiro procure abrir novos espaços de negociação, à medida que trabalha para aumentar o peso internacional do país. É compreensível que Brasil e EUA tenham divergências. Mas é preciso tato, bom senso e responsabilidade no encaminhamento dessas questões.

Tudo isso tem faltado ao governo brasileiro. Faltaram tato e bom senso porque se tornou claro que os dois países trilhavam um rumo desaconselhado pelos EUA, que nunca acreditaram, com razão, na sinceridade do Irã. Faltou responsabilidade porque o acordo do dia 17, em Teerã, deu ao Irã mais espaço para continuar ganhando tempo e ampliando sua capacidade nuclear.

A reação de desagrado do Brasil e da Turquia se deve ao fato de, no dia seguinte à assinatura do acordo, os EUA terem anunciado um entendimento com os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU (inclusive China e Rússia) para aplicar a quarta rodada de sanções ao Irã. A resolução está sob exame dos membros do Conselho, que atualmente inclui Brasil e Turquia.

Uma das razões de divergência entre Brasil e EUA está ainda na interpretação de uma carta enviada pelo presidente Obama dia 20 de abril a Lula. Para Washington, ela alertava para os riscos de um acordo com o Irã. Para Brasília, incentivava o acordo que o país e a Turquia acabaram fechando em Teerã.

A diplomacia brasileira só leu os trechos da carta que lhe interessavam. E isto, infelizmente, solapa a posição que o país sempre desfrutou como um interlocutor confiável nas negociações internacionais, em nome de um esquerdismo ultrapassado e fora de contexto.

Cartada nuclear

30/03/2010

Brasília-DF

Luiz Carlos Azedo

Com Norma Moura

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai endurecer o jogo na 8ª Conferência de Revisão do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP), em maio, na sede da ONU, em Nova York, considerada decisiva. O Brasil aderiu ao tratado durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, depois de 30 anos de resistência dos militares, que desenvolveram pesquisas para transformar o país numa potência nuclear. Lula concorda com a tese de militares e de diplomatas de que foi um erro assinar o tratado. E não pretende corroborar com o novo aditivo que está sendo proposto para a nova rodada de revisão do TNP.

Ligado à Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), o documento foi concluído em 1968, com a participação de mais de 130 países. A conferência do tratado ocorre a cada cinco anos. No encontro de 1995, o TNP foi prorrogado de forma indeterminada. Em 2000, foram estabelecidos 13 pontos para o desarmamento. Mas, durante o governo Bush, as negociações empacaram. A rodada de 2005 fracassou. Agora, para reforçar o tratado, os presidentes dos Estados Unidos, Barack Obama, e da Rússia, Dimitri Medvedev, negociam um espetacular acordo de redução de mísseis nucleares. Mesmo assim, nos respectivos arsenais, manterão 1.500 mísseis nucleares cada.

O presidente Lula anda dizendo que os Estados Unidos e a Rússia não têm moral para impor restrições aos programas nucleares para fins pacíficos dos países emergentes. Opõe-se às retaliações aprovadas pelo Conselho de Segurança da ONU ao Irã, por causa do programa nuclear do regime dos aiatolás. Mais do que o desejo de fornecer urânio enriquecido ao Irã, por trás dessa posição está a intenção de não permitir que novas restrições do TNP venham a prejudicar o programa nuclear brasileiro. O Brasil construirá seu submarino nuclear em parceria com a França, mas já domina todo o ciclo nuclear, inclusive a tecnologia para produzir a bomba. A Constituição de 1988, porém, veda esse objetivo.

 Salto alto

Parlamentares do DEM e do PPS saíram impressionados com o salto alto dos tucanos na reunião das três bancadas que discutiu o lançamento da candidatura do governador de São Paulo, José Serra, a presidente da República, em 10 de abril, em Brasília. Alguns já falam como futuros ministros.

Saia justa

Foi a maior saia justa, mas o presidente Lula conseguiu convencer o rei da Suécia, Carl XVI Gustaf, a rainha Silvia e toda a comitiva sueca de que o caça sueco Gripen NG, da SAAB, ainda está na disputa do programa FX-2 de reaparelhamento da Força Aérea Brasileira. Saíram todos contentes do almoço no Palácio do Itamaraty, onde o ministro da Defesa, Nelson Jobim, anunciou que ainda aguarda o documento com novos detalhes da proposta sueca para encaminhar uma posição final ao presidente Lula, que submeterá a decisão ao Conselho Nacional de Defesa. Também participam da concorrência a norte-americana Boeing, responsável pelo caça F-18 Super Hornet, e o consórcio Rafale International, liderado pela francesa Dassault.

Amorim explica à AIEA posição do País sobre programa nuclear do Irã

23/03/2010

Agência Estado

Em meio a questionamentos internacionais com relação à posição do Brasil frente ao programa nuclear iraniano, o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, reúne-se amanhã no Rio de Janeiro com o diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Yukiya Amano. Empossado em 1 de dezembro passado, Amano, que também visitará Uruguai e Argentina, ouvirá de Amorim uma explanação sobre a posição brasileira de defesa do direito do Irã usar a energia atômica para fins pacíficos. Uma visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Teerã, programada para maio, tem sido alvo de críticas da comunidade internacional, mas Lula tem dito que o Brasil deve se relacionar com quem quiser, sem prestar contas a outros países.

Na reunião seguida de almoço no Hotel Copacabana Palace, Amorim e Amano conversarão sobre “todos os assuntos que interessam o Brasil na AIEA”, disse fonte próxima ao Ministério das Relações Exteriores. Isso deverá incluir, além da questão iraniana, a posição do País em relação ao Protocolo Adicional ao Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP). O governo brasileiro assinou o TNP em 1998, mas se recusa a aderir ao Protocolo, que permite inspeções mais invasivas das instalações nucleares, inclusive de empresas privadas e pessoas envolvidas no programa nuclear, por considerar que expõe tecnologia sensível e viola a soberania. Em fóruns internacionais, o Brasil tem sido pressionado a assiná-lo, apesar de o programa brasileiro no setor ter fins pacíficos.

Amano visitou hoje as instalações das Indústrias Nucleares Brasileiras (INB) em Resende, no sul fluminense, onde é produzido combustível para alimentar as usinas de Angra 1 e Angra 2. Segundo testemunhas da visita, porém, não tocou no assunto Irã, nem fez perguntas fora da rotina. Depois de chegar de helicóptero por volta de 10h, assistiu apresentações da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), da Eletronuclear e da INB sobre o programa nuclear brasileiro e percorreu as fábricas. Na visita das 10h às 14h30, Amano pediu detalhes sobre procedimentos seguidos pela INB para conversão e enriquecimento do material nuclear. Os brasileiros consideraram a visita como rotina: outros diretores-gerais da AIEA já visitaram as instalações brasileiras no passado.

Nascido no Japão, Amano substituiu no posto o egípcio Mohammed El-Baradei. Graduado em direito pela Universidade de Tóquio, tem pós-graduações em Nice e Besançon, na França. Entrou para o Ministério das Relações Exteriores japonês em 1972 e exerceu vários cargos diplomáticos. Antes de assumir a direção da AIEA, foi representante permanente e embaixador extraordinário e plenipotenciário do Japão junto às organizações internacionais em Viena e também junto à AIEA.

 http://jcrs.uol.com.br/site/noticia.php?codn=23391&codp=76&codni=3