Posts Tagged ‘nordeste’

Usinas nucleares no rio São Francisco

07/09/2010

26/08/2010 – 9:19 –  Por Anivaldo Miranda

O Brasil é o país do corporativismo. Isso explica o porquê do caminho tortuoso percorrido recorrentemente pelos assuntos que requerem debate intenso e transparência máxima por serem de amplo interesse público. Um exemplo dessa alergia ao bom debate é a condução do projeto que pretende a implantação de uma central nuclear e várias usinas atômicas no Nordeste brasileiro, mais precisamente em algum ponto dos estados de Pernambuco, Alagoas, Sergipe ou Bahia.
 Advirto, de antemão, que não alimento qualquer preconceito contra a energia nuclear. Como toda forma de energia manipulada por homens e mulheres, ela apresenta riscos e impactos, vantagens e desvantagens a serem consideradas em cada situação. No Brasil, a energia nuclear deveria estar sendo discutida, planejada e viabilizada no contexto de uma ampla reavaliação e reflexão nacional sobre nossa matriz energética, a partir dos novos cenários do aquecimento global, da sustentabilidade dos recursos naturais e das possibilidades tecnológicas que o futuro nos oferece.
Não é esse, positivamente, o espírito que comanda os planos do governo Lula para implantação das usinas nordestinas. Esses planos, de repente caíram de pára-quedas nas capitais dos quatro Estados, seguidos de diversos debates “chapa branca” destinados a exaltar apenas as vantagens socioeconômicas da implantação da central nuclear e estimular, veladamente, uma feroz disputa entre os governos locais, para saber quem vai assegurar, em seus respectivos territórios, a localização do projeto.
Portanto, ao invés de constituir uma alternativa concebida e defendida em ampla interação com um leque de outras alternativas energéticas (solar, eólica, da biomassa, etc.), complementares entre si e racionalmente dispostas em verdadeiro programa energético nacional, posto às claras e para discussão de todo o país, o projeto das usinas já veio com forte cheiro corporativo, com conotação de disputa semelhante às famosas “guerras fiscais” entre estados e com informações truncadas.
Em outras palavras, o projeto já surgiu fomentando uma concorrência regional acirrada entre os quatro estados, por empregos qualificados e arrecadação de impostos, o que não deixa de ser uma forma perversa de substituir o debate amplo, científico e cidadão,  por uma refrega fratricida que irá, inevitavelmente, subtrair das populações alvo a liberdade de definir se querem ou não querem essas usinas. E, no caso de sua aceitação, a concorrência fomentada irá prejudicar, também, a qualidade das escolhas tecnológicas a serem feitas e a liberdade de, eventualmente, fazer-se a implantação da central nuclear com as melhores salvaguardas, a maior segurança existente, as garantias confiáveis e as compensações ambientais necessárias.
Quando a notícia da implantação da central nuclear alcançou o Nordeste, falou-se de dois cenários para sua implantação: no litoral, confrontando-se com o Oceano Atlântico, e na calha do rio São Francisco. Agora ficamos sabendo que a localização pra valer sempre foi mesmo a calha do Velho Chico. O litoral apareceu tão somente para suavizar a pílula.
 Juntando as peças do quebra-cabeças não fica difícil de matar a charada. As usinas nucleares vão para a calha do rio São Francisco seguramente como compensação aos impactos negativos que o Projeto da Transposição terá na diminuição da capacidade de geração de energia do sistema hidrelétrico ali construído. As autoridades esconderam o jogo, mas agora fica claro que o rio vai ter que pagar, mais uma vez, um alto preço porque, dependendo do tipo de usinas a ser escolhido, uma enorme quantidade de água doce deverá ser usada para fins de refrigeração do sistema.
Os possíveis locais para implantação das unidades nucleares são Belém do São Francisco, Cabrobó e Lagoa Grande, em  Pernambuco; Poço Redondo, Porto da Folha e Gararu, em Sergipe e, finalmente, Belo Monte, Traipú ou Penedo, em Alagoas, todos às margens do rio. Conforme a escolha tecnológica a ser feita (chaminés ou circuito fechado) cerca de 3m³/s (três metros cúbicos por segundo) ou 60 m³ (sessenta metros cúbicos) de água do São Francisco serão utilizados no processo¹, o que ressalta ainda mais a necessidade de maiores informações e transparência nas decisões a serem tomadas, até porque não se sabe se as usinas projetadas serão de tecnologia avançada ou de concepção já ultrapassada.
“O que engorda o boi é o olho do dono,” ensina a sabedoria popular. Portanto, em tempos de debate eleitoral, ao invés do blá,blá,blá mentiroso de quem trouxe ou não trouxe verbas federais, o que realmente deveria estar sendo discutido pelos candidatos a senador e deputado federal nos quatro estados que brigam pelo projeto das usinas, são assuntos estratégicos como esse do futuro da nossa energia e do nosso meio ambiente. Mas, como os candidatos até agora não se dispuseram a fazê-lo, façamos nós, antes que os destinos do Nordeste sejam sempre decididos fora de suas fronteiras.
(1) Informações colhidas junto à CCR do Baixo/Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco

Depósito de lixo nuclear pode acabar em alguma área do Nordeste

24/08/2010

Antes do início das obras de um depósito de longa duração, a usina nuclear de Angra 3 não poderá entrar em operação

Uma área longe dos centros urbanos, isolada, no Nordeste. Esse é o provável destino do lixo de alta atividade radioativa produzido no País, o rejeito do combustível usado nas usinas nucleares, prevê o ministro da Ciência e Tecnologia, Sérgio Rezende.

Atualmente, os rejeitos das usinas são guardados em piscinões instalados nas próprias usinas.

Mas a construção de um depósito de longo prazo para os rejeitos de alta radioatividade deverá começar até 2014, data prevista para a entrada em operação da usina nuclear de Angra 3, no Estado do Rio de Janeiro. Reportagem de Marta Salomon, em O Estado de S.Paulo.
A construção desse depósito é uma das exigências da licença ambiental concedida para a retomada das obras de Angra 3. Sem o início das obras, a usina não poderá entrar em operação.

Segundo Sérgio Rezende, a localização do depósito será objeto de um leilão. O município que abrigar o futuro depósito receberá dinheiro em formato de royalties da União.

“Não vejo dificuldade, acho que haverá vários municípios disponíveis, provavelmente no Nordeste”, disse o ministro.

A localização do depósito é uma das indefinições do Programa Nuclear Brasileiro. Também segue sem definição do governo a localização das duas próximas usinas nucleares, cuja entrada em operação é prevista para ocorrer até 2022. Estudos da Eletronuclear apontam 22 locais no Nordeste, inclusive às margens do Rio São Francisco.

As indefinições do programa vêm se arrastando desde dezembro de 2008, quando ocorreu a última reunião sobre o tema em comitê de ministros.

Em maio de 2009, o Ministério de Ciência e Tecnologia fechou proposta de criar a Agência Reguladora Nuclear, encarregada de fiscalizar a área, tarefa atualmente à cargo da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN). No entanto, o texto ainda não foi enviado ao Congresso Nacional.

Também circula no governo minuta de decreto presidencial que nomeia o secretário de Assuntos Estratégicos, Samuel Pinheiro Guimarães, coordenador do comitê de ministros responsável pelo programa nuclear.

Agência nuclear defende modelo de Angra 3 para usinas no Nordeste

30/06/2010

DA agência Brasil
O diretor da Agência Brasileiro-Argentina de Contabilidade e Controle de Materiais Nucleares (Abacc), Lothário Deppe, defendeu hoje (24) no Rio a adoção do mesmo modelo da Usina Angra 3 na construção das centrais nucleares no Nordeste, adaptando o projeto às condições da região, principalmente quanto ao solo e à temperatura.
Engenheiro nuclear com formação nos Estados Unidos e com 30 anos de serviço na área de projetos e construção de centrais nucleares na Nuclen/Eletronuclear, Deppe considerou que seria “um desperdício” a abertura de licitação internacional para as novas usinas no Nordeste.
Ele participou do simpósio anual da Seção Latino-Americana da Sociedade Nuclear Americana (LAS-ANS), onde ressaltou que o Brasil tem tecnologia, experiência e pessoal capacitado para aplicar nas novas centrais nucleares o projeto de Angra 3, o que irá garantir que as novas unidades sejam 100% nacionais.
Deppe disse à Agência Brasil que isso permitirá que as obras fiquem entre 30% e 40% mais baratas, além de representar “a maximização e otimização da participação nacional”. As estimativas iniciais indicam que as usinas do Nordeste poderão custar entre R$ 10 bilhões e R$ 12 bilhões.
Segundo o diretor da Abacc, será usada tecnologia nacional, que já foi transferida ao Brasil pela Alemanha graças ao acordo bilateral firmado em 27 de junho de 1975. O tratado completa 35 anos no próximo domingo.