A professora das energias renováveis

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A alemã Ursula Sladek passou 25 anos em campanha por energia verde em sua cidade, apenas para proteger sua família
Enquanto o mundo enfrenta as implicações da usina nuclear de Fukushima, no Japão, Ursula Sladek está furiosa:
— Tivemos Chernobyl há 25 anos. Fico muito irritada por termos precisado de outro desastre para abrir nossos olhos. Agora sabemos que um desastre como esse pode acontecer em países altamente industrializados como o Japão.
O acidente de Chernobyl, em 1986, transformou Ursula, 64 anos, em uma heroína ambiental, criadora de uma das primeiras empresas descentralizadas de energia renovável na Europa, comandada pelo povo e para o povo.
A conquista seria notável o bastante em qualquer circunstância, mas Ursula foi nomeada a vencedora europeia do Prêmio Goldman de Meio Ambiente 2011, um tipo de Nobel para o ambiente — em abril deste ano, em São Francisco (EUA). Mais impressionante ainda é que ela é uma pessoa sem conhecimentos científicos ou de negócios, estudou para ser professora do Ensino Fundamental. Poderia até se argumentar que tudo foi possível apenas porque ela foi responsável pela criação de uma família. Se não tivesse tido filhos, poderia não ter se importado.
Ursula nunca planejou criar uma empresa de energia, porém sentiu-se compelida a agir quando resíduos radioativos de Chernobyl — a cerca de 2 mil quilômetros de sua casa — foram encontrados em parquinhos, jardins e fazendas de Schönau, a pequena cidade dentro da Floresta Negra onde vive sua família:
— Tive de pensar se meus filhos poderiam comer espinafre e alface ou beber nosso leite, se poderiam brincar na areia e por aí vai. Houve muitas coisas práticas a considerar. Também sabia que precisava olhar para o quadro mais amplo e questionar o uso da energia nuclear. Não se pode ter cinco crianças e deixar de se preocupar sobre o mundo em que elas têm de viver.

Grupo conquistou contrato para fornecer energia à cidade

Objetivo é alcançar marca de 1 milhão de consumidores
Durante esse intenso período de aprendizado, Ursula Sladek e seu marido empregaram a maior parte do tempo conduzindo reuniões e campanhas, portanto seus filhos tiveram de aprender a cuidar de si mesmos.
— Estávamos frequentemente longe ou havia pessoas na casa, então as crianças (que tinham 13, 11, nove, sete e quatro anos na época) tiveram de ajudar com as tarefas domésticas. Elas aprenderam a ir às compras e cozinhar. Meus três garotos são ótimos cozinheiros.
Às vezes, eles ansiavam por uma vida familiar normal e se ressentiam em ter sua casa invadida por ativistas e jornalistas, conta Ursula.
— Todos tínhamos de fazer sacrifícios, mas isso não é necessariamente ruim. É importante para as crianças verem que seus pais estão engajados em algo importante que não tem nada a ver com seu interesse individual — diz ela.
Depois de muitos anos e batalhas, em 1997, ela e seus amigos levantaram dinheiro suficiente por meio de doações da comunidade para comprar o contrato e fornecer ao município de Schönau eletricidade não nuclear. Ursula tornou-se presidente e ainda dirige a empresa, que se expandiu e inspirou outras comunidades a fazerem o mesmo. Sebastian se envolveu nisso por dois anos e Alexander está retornando a Schönau neste verão para trabalhar lá também.
— Todos nossos filhos estão interessados naquilo que estamos fazendo e, claro, nenhum deles compra energia nuclear ou fóssil.
Objetivo é alcançar marca de 1 milhão de consumidores
A EWS pertence a mil cidadãos e obtém toda a sua energia de fontes verdes, em sua maioria operações de hidrelétricas, mas também de painéis solares, turbinas de vento e pequenas centrais de cogeração residenciais, que produzem calor para a casa e eletricidade para a rede. Os acionistas da companhia recebem dividendos, e o resto é reinvestido em novos projetos de energia renovável e em treinamento e apoio a comunidades que querem dirigir sua própria empresa de energia verde.
— É importante para as pessoas perceberem que elas mesmas podem fazer as mudanças. Podem começar por baixo, instalando um moinho de vento ou painéis solares. Então, em maior escala, tomar as redes dos grandes provedores de energia. Isso pode ser feito em todo lugar e queremos motivar as pessoas — afirma.
Do fornecimento de 1 milhão de kw/h a 1,7 mil clientes em 1998, a EWS agora provê mais de 400 milhões de kw/h para mais de 100 mil clientes em toda a Alemanha. Ursula espera ter 1 milhão de consumidores em 2015.
Com uma enxurrada de novos clientes trocando para a EWS depois de Fukushima, ela não pretende desacelerar e aproveitar o tempo com seus sete netos em breve:
— Teria gostado de ter mais tempo para minhas crianças e, agora, meus netos. Mas faço o que faço por eles, e eles sabem disso. É seu futuro que estou tentando proteger, e realmente acho que vale a pena.


Movimento pela energia verde começou dentro de casa

Ursula, o marido Michael e um pequeno grupo de pais que pensavam do mesmo jeito formaram a Parents for a Nuclear Free Future
O governo, sua igreja e as empresas de energia não estavam dispostos a discutir a energia nuclear. Então Ursula, seu marido Michael, um clínico geral, e um pequeno grupo de pais que pensavam do mesmo jeito formaram a Parents for a Nuclear Free Future (Pais por um Futuro Livre de Energia Nuclear, em tradução livre) para pesquisar a indústria energética na Alemanha e ver se poderiam limitar a dependência de sua comunidade à energia nuclear.
Sua abordagem foi em pequena escala, doméstica. Primeiro, pesquisaram como a energia era produzida e, então, observaram como economizá-la.
— Começamos em nossas casas, então sabíamos do que estávamos falando. Tentamos motivar a cidade inteira a poupar energia ao promover campanhas e competições — conta Ursula.
Seu grupo não apenas educou as pessoas, também começou a reativar pequenas centrais hidrelétricas na Floresta Negra que estavam em mau estado e pediram à companhia energética regional (KWR) para aumentar as fontes renováveis e recompensar a eficiência energética. A empresa, porém, não estava interessada:
— Pensamos que estávamos pedindo algo sensato, e nos trataram como crianças. Então decidimos que o único jeito de mudar era nós mesmos adquirirmos a rede. Foi uma ideia louca porque nenhum de nós sabia como dirigir uma companhia de eletricidade.
Ativistas verdes da Grã-Bretanha costumam apontar a Alemanha como vitrina para fontes de energia renováveis — como se um governo esclarecido fosse responsável por isso. A história de Ursula, entretanto, sugere que a mudança ocorreu realmente nas bases, com famílias e comunidades trabalhando juntas.
Quando a licença da KWR para operar a rede de energia estava para ser renovada, em 1991, Ursula e seu grupo criaram a Schönau Power Supply (EWS), uma cooperativa dirigida por cidadãos, e lançaram campanhas locais para convencer a Câmara Municipal e a população a deixá-los gerenciar a rede e comandar campanhas em nível nacional para arrecadar fundos.
http://www.clicrbs.com.br/especial/rs/nossomundo/19,997,3385903,Movimento-pela-energia-verde-comecou-dentro-de-casa.html

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