O Brasil deve investir mais em energia nuclear?

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Tendências/Debates da Folha de S.Paulo

22/jan/11

O Brasil deve investir mais em energia nuclear?

NÃO

Potencial hidroelétrico não está esgotado

JOSÉ GOLDEMBERG, 82, doutor em ciências físicas pela USP, é professor do Instituto de Eletrotécnica e Energia da mesma universidade. Foi reitor da USP (1986-89), secretário da Ciência e Tecnologia da Presidência da República e ministro da Educação (governo Collor) e secretário de Meio Ambiente do Estado de São Paulo (2002-2006).

A opção de geração de eletricidade com energia nuclear foi estimulada pelos governos de vários países que não tinham muitas outras opções, como nos casos da França, do Japão, da ex‐União Soviética e dos Estados Unidos, que desejavam se libertar da dependência da importação de gás e petróleo.
Ela teve sua época de ouro durante a década de 1970, mas, a partir de 1985, praticamente estagnou no mundo todo; hoje, ela representa aproximadamente 15% da eletricidade usada no mundo; apenas em alguns países, como França e Japão, representa fração maior.
Os demais 85% provêm de outras fontes, como carvão, energia hidroelétrica e, mais recentemente, as energias renováveis (vento, energia solar e biomassa).
Quais as razões para tal? Em primeiro lugar, as preocupações com a segurança dos reatores nucleares, que foi seriamente abalada com os acidentes de Three Mile Island (nos Estados Unidos) e Chernobyl (na ex‐União Soviética).
Com outras tecnologias para produzir eletricidade também ocorrem acidentes (como incêndios ou ruptura de barragens em reservatórios de usinas hidroelétricas), mas acidentes nucleares que espalham radioatividade podem ser muito mais graves, como se viu em Chernobyl, onde até hoje centenas de quilômetros quadrados em torno da usina estão interditados.
Questões não resolvidas sobre como armazenar o "lixo nuclear" contribuem para o problema.
Em segundo lugar, custos. Energia nuclear é tecnologia complexa e cara, e ficou ainda mais cara e deixou de ser competitiva em relação a outras fontes de energia com os gastos para melhorar o desempenho e a segurança dos reatores nucleares. De modo geral, só empresas estatais
constroem reatores nucleares, ou empresas privadas com fortes subsídios governamentais.
Finalmente, as visões ultrapassadas do "Brasil grande" de que o domínio da energia nuclear era o "passaporte para o futuro", como se ela fosse a única capaz de fazê‐lo.
O Brasil, há 35 anos, no governo Geisel, se viu diante desses dilemas e quase embarcou num projeto de se tornar um país "nuclear", com dezenas de reatores nucleares.
Felizmente, o bom senso prevaleceu, porque os cientistas brasileiros, por meio da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, alertaram o governo de que o país tinha outras opções melhores para produzir a energia elétrica de que necessitava. Sem esses alertas, a usina hidroelétrica de Itaipu não seria construída, pois os recursos seriam desviados para usinas nucleares, como nos confidenciou em 1992 o general Costa Cavalcante, que, em 1975, era presidente da Eletrobras.
Passados 35 anos, a situação não mudou muito. O país ainda tem amplas oportunidades de produzir energia elétrica a partir de fontes renováveis e não poluentes,como a energia hidroelétrica, cujo potencial ainda está longe de estar esgotado, além de outras opções, como bagaço de cana, em São Paulo, e energia eólica, no Norte do país.
O fato de as usinas nucleares não emitirem "gases de efeito estufa" pode ser umavantagem na Inglaterra, onde energia elétrica é gerada com carvão, mas não no Brasil, onde as energias renováveis também não emitem esses gases.
Não há, portanto,razões para investir mais em energia nuclear no Brasil, a não ser para acompanhar os desenvolvimentos tecnológicos dessa área.

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