Pesquisadora aponta risco do exagero com radiação

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Eliano Jorge
O avanço da Medicina também atenta contra a saúde. Pelo menos, nos tratamentos com radiação, o perigo é grande, na opinião da professora Emico Okuno, do Departamento de Física Nuclear do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP).
– Aumentou terrivelmente a dose (de radiação) nas pessoas devido à tumografia computadorizada, que o mundo inteiro começou a tirar a torto e a direito. Aumentou tremendamente a dose na população como um todo, nos últimos 10 anos – adverte a pesquisadora em dosimetria das radiações.
Ela dedicou um capítulo inteiro sobre este assunto no livro Físicas das Radiações (Oficina de Textos, 2010), escrito em parceria com a colega Elisabeth Mateus Yoshimura e lançado há duas semanas. Nele, conta, estão publicadas observações pioneiras no Brasil, sobre fundamentos, aplicações e efeitos biológicos.
– É meio pra alertar pessoas que usam radiações talvez até indevidamente, para tirar radiografia de tudo quanto é coisa, exames de Medicina Nuclear com exageros – afirma Emico em entrevista a Terra Magazine.
O risco não se limita a apenas recorrer habitualmente à radiação. “A questão não é frequência, é dose mesmo. A cada vez que você faz uma imagem, a pessoa está levando uma dose, e a radiação causa dano no DNA. E o dano, se não for corrigido, permanece. O próprio organismo tem mecanismos de correção. Acontece que, se produzir um número muito grande de danos, de repente não se faz a correção de um dano que sobrou lá, e ele se soma a outro posterior. De radiografia de pulmão, por exemplo. Depois de algumas dezenas de anos, você descobre que tem um câncer”, analisa.
Os estudos nesta área trazem registros esclarecedores de mais de 60 anos. “Está perfeitamente bem documentado o que se sabe a partir de sobreviventes de (explosões atômicas em) Hiroshima e Nagasaki, o que aconteceu com pessoas que levaram tantas doses (de radiação). Que estavam em determinada região, perto, longe, no hipocentro. Tem toda uma estatística, as pessoas estão sendo ainda acompanhadas, e os próximos 20 anos vão acompanhar os filhos dos descendentes. E nos outros 40 anos, os netos dos descendentes, para ver como está se propagando isso porque tem os efeitos hereditários”, diz a doutora em Física, com experiência em instituições estrangeiras.
Ela aproveita para diferenciar as fontes de emissão. “Telefone celular é outra coisa, não tem nada a ver. Estamos falando de radiações ionizantes, raio-x, radiação gama, radiações emitidas por elementos radionuclídeos. E há radiações não-ionizantes, que são radiações ultravioleta, luz visível, infravermelho, micro-ondas, que é o caso de celulares. Isto é uma outra conversa”.
Ainda Chernobil
Nas últimas semanas, noticiou-se a possibilidade de incêndios florestais atingirem usinas nucleares na Rússia e na Ucrânia. “Para o incêndio chegar, é preciso ter mata em volta, e não acredito muito que haja. Em geral, é uma área isolada”, comenta Emico Okuno.
“Depende da parede de contenção do próprio reator nuclear. A de Chernobil não era adequada, por isso deu uma explosão e foi tudo para fora”, explica, referindo-se à central nuclear ucraniana que espalhou material radioativo após uma explosão, em 1986.
Aquele foi o pior acidente nuclear na história. “Pegou o hemisfério norte praticamente todo, Europa principalmente. Mais nas regiões próximas ao reator. A Polônia foi altamente contaminada. O material radioativo foi pra atmosfera, o vento a carregou pra lá e pra cá. Onde choveu foi mais contaminado. O material não só chegou ao solo como nas folhas, na grama. E contaminou as vacas, que, por sua vez, produziram leite contaminado”, descreve a pesquisadora.
Na sua avaliação, um eventual incêndio na área de Chernobil agora não provocaria novos desastres. “Acredito que não espalhe muito a contaminação, que a essa altura deve estar no solo, porque com a chuva os radioisótopos devem ter caído para o solo e se aprofundado nele. Aliás, o radioisótopo mais importante é o césio-137, o mesmo que causou o acidente de Goiânia (em 1987)”, diz Emico.
Ainda há casos de animais contaminados por radioatividade de Chernobil, 24 anos depois, na Alemanha, que não tem fronteira com a Ucrânia.
– Talvez os frutos das árvores estejam contaminados e eles podem ser os responsáveis pela contaminação, se for o caso de espalhar com o incêndio. Em geral, a contaminação ocorre com cogumelos, líquens, morangos ou alguns vegetais que os javalis comem. Mas a contaminação vem do solo para a planta. Alguns vegetais podem ter mais facilidade para incorporar o césio – comenta a professora.
Não há perspectiva de recuperação das áreas atingidas pela energia nuclear. “O fim da radioatividade no lugar pode ser longuíssimo, de várias centenas de anos. E o fato de um dado local estar mais contaminado é por causa dos radionuclídeos que foram para o espaço durante o acidente, levados pelo vento e que acabaram caindo com a chuva. Então, entre um local e outro, pode haver uma diferença muito grande de contaminação do solo”, detalha Emico Okuno.
Nem sempre a catástrofe atômica é acidental. “Os americanos fizeram 66 explosões com testes nucleares, de 1946 a 1958, no arquipélago das Ilhas Marshall, principalmente no Atol de Biquíni”, lembra a professora. “A população desse atol foi levada para outra ilha, e eles tentaram a volta para o lar em 1972, mas tiveram que desistir porque o solo estava contaminado e os alimentos, como caranguejo, fruta-pão e coco, estavam com quantidade razoável de césio-137. Outra tentativa de retorno ocorreu em 1978”, acrescenta.

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