A bomba que mudou o mundo

by

Heitor Scalambrini Costa
Professor Associado da Universidade Federal de Pernambuco

Com a famosa frase “meu Deus, o que foi que nós fizemos”, pronunciada por
um dos tripulantes do avião que conduziu o artefato nuclear sobre
território japonês, o mundo relembra os 65 anos do lançamento das bombas
atômicas durante a Segunda Guerra Mundial, ambas pelos Estados Unidos
contra o Japão, detonadas nas cidades de Hiroshima (6 de agosto de 1945) e
Nagasaki (9 de agosto de 1945). O poder de destruição das bombas foi
imenso, ao menos 200 mil morreram em Hiroshima e 100 mil em Nagasaki,
iniciando, assim, a chamada era nuclear. Esses acontecimentos devem ser
lembrados sempre por sua brutalidade e impunidade.

O Japão, único país a ter sido bombardeado em duas ocasiões com armas
nucleares reclama há anos a abolição das armas de destruição em massa. A
detonação de uma bomba nuclear provoca danos imensos. O grau de destruição
dependerá da distância de onde o centro da bomba é detonado, chamado de
marco zero (podendo chegar nesse local a temperatura de até 300 milhões de
graus Celsius). Quanto mais próximo alguém estiver deste local, maior será
a gravidade dos danos. Eles são causados por diversos aspectos: uma onda
de calor intensa de uma explosão, pressão da onda de choque criada pela
detonação e precipitação de material radioativo. As partículas radioativas
que chegam ao solo penetram no manancial d’água e são inaladas e ingeridas
por pessoas a uma distância considerável do local de detonação da bomba.
Alguns dos problemas de saúde ocasionados pelo material radioativo
incluem: náusea, vômitos e diarréia; catarata; perda de cabelo; perda de
células sanguíneas. Estes problemas freqüentemente aumentam o risco de
ocorrência de leucemia, câncer, infertilidade, deficiências congênitas,
dentre outros males.

O Tratado de Não Proliferação Nuclear, adotado em 1967, teve o objetivo de
“congelar” a posse de armas nucleares às cinco potências nucleares da
época: Estados Unidos, União Soviética, Inglaterra, França e China. Na
prática, o que se verificou foi o inverso, com os esforços de vários
países, dentre eles a Índia, o Paquistão e Israel, de produzir armas
nucleares, agravando os problemas de proliferação nuclear e criando sérios
transtornos no cenário internacional. Lembremos do caso do Iraque acusado
de produzir armas nucleares, justificativa usada como uma das causas da
sua invasão. Outros países também tiveram a iniciativa de produzir
armamentos nucleares, como a África do Sul, Líbia, Irã e Coréia do Norte.
Até o Brasil e a Argentina desenvolveram atividades nessa direção durante
o período militar.

Mesmo não havendo provas definitivas de que o nosso país esteja
construindo armas nucleares, eventos e pronunciamentos em passado recente
levam-nos a crer que o Brasil “recomeçou a flertar” com a idéia de
produzir uma bomba atômica, após tentativas anteriores mal sucedidas
durante o regime militar. Nos últimos anos diversas autoridades, como o
vice-presidente da República José Alencar e o ex-ministro de Ciências e
Tecnologia Roberto Amaral (quando no cargo), declararam a necessidade do
país dispor de armamento nuclear para defesa preventiva e de suas
riquezas, como fator de dissuasão e para impor mais respeitabilidade.
Também o documento sobre a Estratégia Nacional de Defesa lançada em 2008,
afirma a “Independência nacional, alcançada pela capacitação tecnológica
autônoma, inclusive nos estratégicos setores espacial, cibernético e
nuclear. Não é independente quem não tem o domínio das tecnologias
sensíveis, tanto para a defesa como para o desenvolvimento”. Embora a
Constituição diga que toda atividade nuclear em território nacional
somente será admitida para fins pacíficos, o assunto está longe de ser
considerado um tabu.
A ressurreição do Programa Nuclear Brasileiro é mais um dos indícios da
estratégia governamental de tornar o Brasil uma potência atômica. O
dinheiro empregado no programa, para a construção e funcionamento de novas
usinas núcleoelétricas, permitirá a lubrificação de todas as suas
engrenagens. A cada usina que construímos aumentaremos o volume de urânio
que produzimos, aumentando assim o saldo com que se espera entrar
definitivamente como sócios no Clube Atômico, e para tal é necessário ter
a bomba atômica.
O Brasil pela exuberância e diversidade de fontes energéticas renováveis
disponíveis em seu território, não precisa da energia nuclear para atender
a demanda de energia elétrica, e assim, pode adotar opções mais atraentes
do ponto de vista econômico, social e ambiental.

Abrir mão da energia nuclear significa um importante passo para evitar o
perigo de uma nova onda de proliferação nuclear, dada a natureza dual da
energia nuclear, que se presta tanto para aplicações pacíficas como
militares, sem falar dos problemas físicos de segurança nuclear. Não
devemos nos esquecer do que afirmou o físico Robert Oppenheimer,
responsável pela construção da primeira bomba atômica, quando visitou o
Brasil, em 1953: “Quem disser que existe uma energia atômica para a paz e
outra para a guerra, está mentindo”.

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