Memórias de Chernobyl assombram país em chamas

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Governo admite que os fogos ameaçam instalações nucleares, enquanto calor e incêndios se intensificam
 
“Todos os recordes e temperaturas foram quebrados. Este país nunca viu nada assim e simplesmente não estamos preparados para trabalhar nestas condições.” O desabafo foi feito ontem por um oficial de emergência de Moscovo, mais de duas semanas depois do início da onda de incêndios que percorre o país, onde se têm registado as temperaturas mais altas dos últimos 130 anos. Apesar de os incêndios se estarem a intensificar, dois continuam a ser particularmente preocupantes: há laboratórios especiais estão a monitorizar a potencial libertação de partículas nucleares contaminantes nas cidades de Bryansk e Sarov, a cerca de 400 km de Moscovo e na fronteira com a Ucrânia. Ontem o ministro russo da Emergência admitiu que esses incêndios estão a ameaçar as instalações nucleares da região. “No caso de o incêndio avançar, os radionuclídeos podem subir (no ar) juntamente com partículas de combustão”, explicou Sergei Shoigu em directo na televisão.

É um risco ameaçador de contaminação, no mesmo local que, em 1986, foi afectado pelo desastre de Chernobyl – o pior acidente da história da energia nuclear, que produziu uma nuvem de radioactividade 400 vezes mais contaminante que a bomba lançada sobre Hiroxima, há precisamente 65 anos.

Fogos intensificam-se A Rússia tem, neste momento, mais de 1200 km2 do seu território, uma área equivalente a 13 vezes Portugal, em chamas e as temperaturas altas – a rondar os 40 graus – mantêm-se em grande parte dos distritos em alerta, sobretudo no Ocidente do país. O número de mortes também tem vindo a aumentar: até agora 52 pessoas já morreram, com mais de 5 mil evacuadas, 2 mil casas destruídas e mais de 10 mil homens a combater as chamas.

Duas semanas depois do início da vaga de incêndios, o governo de Medvedev admitiu que o aumento da mortalidade, em comparação com 2009, se deve às condições meteorológicas fora do normal. Em Julho, o número de mortes em Moscovo aumentou 50% em comparação com o mesmo mês do ano passado, com quase 5 mil mortes atribuídas às temperaturas altas sentidas no país desde o início do ano. “A onda de calor influenciou certamente” os números, admitiu à AFP Evguenia Smirnova, do registo civil da capital, onde a concentração de partículas tóxicas se multiplicou por 20 na quarta-feira. “É uma razão muito séria para que ninguém saia à rua, e não apenas os idosos, as crianças, as grávidas ou as pessoas que sofrem de doenças cardiovasculares e respiratórias”, alertou Smirnova.

A maioria dos incêndios concentra-se em zonas florestais, mas as cidades povoadas estão cada vez mais sob ameaça. Ontem o governo continuou a evacuar instalações militares e de segurança, tendo enviado helicópteros, aviões e até robôs para controlar os fogos próximos das instalações nucleares.

Por outro lado, o número de afogamentos também continua a aumentar: desde o início desta semana, mais de 200 pessoas morreram a tomar banho, explicou ontem o Ministério da Emergência.

A partir de hoje, as temperaturas deverão aumentar ainda mais, com previsões de 39 graus para Moscovo (a temperatura normal nesta altura do ano ronda os 23 graus) e só deverão começar a descer a partir de 23 de Agosto.

Separar o trigo do joio Vladimir Putin adiantou entretanto que está a ponderar alargar o período de suspensão das exportações de cereais até 2011. Na quinta-feira, o primeiro-ministro anunciou que as exportações de trigo e outros cereais serão suspensas até Dezembro, para “prevenir um aumento dos preços internos da comida”. Os incêndios já destruíram um quinto das produções agrícolas da Rússia, o quarto maior exportador de cereais do mundo. Estima-se que o país já terá sofrido perdas de 35 milhões de toneladas desde o início do ano.

http://www.ionline.pt/conteudo/72879-memorias-chernobyl-assombram-pais-em-chamas

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