Apontar para quem?

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Do blog de Alon:

A presença brasileira no imbróglio alavancou o noticiário aqui sobre a crise em torno do projeto nuclear iraniano. Menos badalada, outra confusão forma-se no Extremo Oriente, entre as duas Coreias. A do Sul acusa a do Norte de ter afundado um navio militar.
As Coreias estão tecnicamente em estado de beligerância desde o conflito dos anos 1950. Ele acabou num armistício, mas nunca chegou a haver acordo de paz.
Por que há duas Coreias? O arranjo vem do fim da Segunda Guerra Mundial. Entre os entendimentos das grandes potências, um previa que derrotada a Alemanha Nazista a União Soviética entraria efetivamente em guerra contra o Japão. E a península coreana seria compartilhada por americanos e soviéticos.
A cristalização da Guerra Fria transformou a península em zona de grande tensão e criou uma divisão nacional que o Norte, governado pelo Partido Comunista, jamais aceitou. E o Norte tentou resolver o assunto à força, invadindo o Sul. Quase conseguiu. Ocupou praticamente todo o vizinho.
No pedaço de chão que sobrou, tropas americanas e outras, sob a bandeira da ONU, desembarcaram e empurraram os norte-coreanos para bem além da separação original. Os militares dos Estados Unidos chegaram à fronteira com a China, ameaçando unificar a península sob a batuta do Sul.
Mas aí os chineses, já governados por Mao Tsé-Tung, não acharam graça e entraram na guerra, empurrando os americanos para os limites de 1950. Aí o conflito parou. Morreram uns 800 mil do lado aliado e 1,5 milhão do lado sino-norte-coreano. Para que tudo ficasse como estava antes de a bagunça estourar.
A divisão das Coreias sobreviveu ao fim da Guerra Fria, também porque a existência do Norte é um vetor de equilíbrio regional entre chineses e americanos. E porque o Norte investe maciçamente em força militar como elemento estabilizador do status quo. E do poder dominante ali.
Paradoxal é que a militarização do Norte e a ameaça permanente de conflito acabam consolidando a presença americana. É mais ou menos o que acontece no Oriente Médio, onde a potencial nuclearização do Irã abre caminho para reforçar estrategicamente o papel da Casa Branca.
Já escrevi que nunca antes o movimento nacional palestino esteve tão limitado às opções políticas de Washington. E a escalada da presença americana no Levante será a resposta “natural” à persistência de um Irã ameaçador para os aliados dos Estados Unidos. Fala-se de Israel, mas este tem mais meios do que os vizinhos árabes para defender-se dos iranianos.
Um cenário de paz duradoura no Extremo Oriente e no Oriente Médio levaria à integração econômica de cada região e à redução da necessidade de alinhamentos — ou de intervenção externa. Mas não é o que se delineia.
Na Coreia do Norte e no Irã, a militarização e o fechamento político parecem ser a resposta de grupos voltados unicamente a manter-se no poder, incapazes de proporcionar bem-estar a seus povos ou de sobreviver num ambiente de democracia. E toda ação traz junto reação.
Na América do Sul temos a vantagem de não haver até o momento situações como a do Irã ou a da Coreia, do contrário haveria obstáculos intransponíveis à integração regional.
Eis uma variável que os apologistas da bomba brasileira deveriam levar em consideração: como nas duas regiões citadas, se alguma nação daqui evoluísse para o produção da bomba atrairia imediatamente para cá os Estados Unidos de maneira decisiva. Ainda mais decisiva do que hoje.
Numa América do Sul democrática, pluralista e completamente livre das armas de destruição em massa a liderança brasileira é natural, pelo peso específico em território, população e economia. Numa outra situação, não seria.
Ficaríamos os sulamericanos mais parecidos com as áreas atuais de conflito. Aliás, ainda sobre este assunto, todo mundo que busca armas nucleares é para apontá-las em direção a alguém. Com objetivos expansionistas ou dissuasórios.
E nós, apontaríamos nossos mísseis nucleares para quem?

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