Atuneiros em Malta – Ação

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 4 de Junho de 2010.

Mediterrâneo, em algum lugar próxima a Malta.

Uma cavalaria. Eram seis botes do Greenpeace, navegando juntos e rápido, em direção aos navios de pesca. Na popa de cada um deles, flamulava um banner com mensagens contra a extinção do atum azul. Estão escritos em 3 línguas. Queremos que todos saibam porque estamos aqui. A frente dos banners estão os ativistas.

Somos quase 20, vestidos em macacões laranjas, capacetes, óculos de proteção e coletes salva-vidas. A bordo temos sacos de areia e escudos feitos de compensado de madeira. Nós sabiamos que a recepção não seria das melhores. O objetivo da ação era afundar uma parte da rede com os sacos de areia, para que os atuns possam fugir.

A medida que chegamos perto da rede percebi que não ia ser nada fácil. Eram 7 navios de pesca (grandes) e mais de 10 barcos pequenos amarrados na rede, para mantê-la aberta. As embarcações são francesas, mas os pescadores vêm de diversas regiões do planeta, movidos pela ganância. Um atum azul já foi vendido no Japão por mais de 100 mil Euros. Cheia, uma rede pode valer até 1 milhão.

Eu estava no maior barco, o Delta. Tudo o que aconteceu a partir daqui ainda passa na minha cabeça como se fosse um filme. Mas foi real. (Mãe, se você estiver lendo, recomendo parar por aqui).

Foram menos de 3 minutos de navegação até a rede, com a água do mar borrifando na nossa cara. Através da lente gotejada dos óculos de proteção tudo o que eu conseguia ver eram os barcos dos pescadores e os pescadores, que gritavam em varias linguas coisas que eu não posso escrever…

Em uma manobra rápida, o John, piloto do barco, encontrou uma brecha e nos colocou bem na beirada da rede, entre dois barcos dos pescadores. A rede devia ter uns 100 metros de diâmetro e bóias circulando todo a volta. Comecei a jogar os sacos de areia com a ajuda do Marcelo, médico e ativista. Cada um deles pesava em torno de 20 kilos e eles estava unidos a um outro saco por um pedaço de corda. Em 2 ou 3 minutos conseguimos jogar 6 ou 7 pares sobre as bóias, enquanto nos equilibramos no barco.

Já dava para ver que um pedaço da rede ia afundar e que alguns dos nossos outros barcos estavam fazendo o mesmo, em vários lugares. Mas a felicidade durou pouquinho… Derrepente o barco começou se mecher rápido. O John estava tentando evitar que um dos barcos dos pescadores passasse por cima da gente. Me segurei no que deu e quando fiquei em pé de novo, vi que eles não estavam muito felizes com a nossa presença.

Os caras estavam armados com arpões e ganchos afiados e não pensam duas vezes antes de tentar furar o barco. Conseguimos fugir, navegando rápido para dentro da rede, já que nosso bote era movido a jato propulsão, o que evitava que as helices ficassem presas.

Infelizmente, nem todos tiveram a mesma sorte.

Quando navegamos para fora da rede e ao redor dos pescadores, estava tudo meio caótico. Dois dos nossos barcos estavam presos na rede e sendo atacados pelos arpões. Já dava para perceber que um deles ia afundar. Os outros barcos desviavam dos pescadores e tentavam ajudar quem precisava. Nessa hora, nós fomos em direção ao “gray whale”, mas tava impossível chegar perto.

Tudo o que podiamos fazer era olhar um dos navios esmagando o bote contra outro barco de pesca. As duas bananas já estavam murchas e com a hélice presa, não havia muito o que os 4 ativistas podiam fazer a não ser tentar se defender. Da popa do navios que acabou de esmagá-los vi um mergulhador que parecia que ia pular em cima deles. Ele pulou, mas caiu na água e começou a cortas os sacos de areia e depois, o que restou do inflável. Agora, eles estavam afundando bem rápido. Para completar o cenário surreal, a tripulação do navio começou a jogar cebolas nos ativistas. Algumas delas os acertam, mas eles tinham os capacetes e escudos. 

Circulamos por trás de um dos navios para tentar ajudá-los e nos deparamos com outro, vindo direto para cima da gente. Os pescadores estavam loucos! O John virou o barco e desviou. Nessas horas é bom ser menor e mais ágil. Mas outro barco deles começou a nos perseguir e novamente tivemos que abortar o plano de ajudar o pessoal do outro bote.

Nesse momento o helicóptero com nosso fotógrafo chegou, mas ele também não foi muito bem recebido. De um dos navios os pescadores atiraram com o sinalizador, que é um tipo de rojão. O tiro passou perto, mas não acertou. Eles atiraram de novo, mas passou longe. Só que quando olhamos para o navio, deu para ver que dessa vez a pistola do sinalizador não estava mais mirando para cima e sim para nós. Deu tempo de abaixar e nos proteger com o “escudo” antes de ouvir o zunido do sinalizador passando há alguns metros das nossas cabeças. Nós jogamos sacos de areia na rede e eles atiram bolas de fogo na gente…

Foram dois tiros, mas nenhum acertou. Quando eles pararam, deu para ver que os ativistas de um bos botes presos já haviam pulado na água e nadado para outro inflável, que os levou embora.

Os pescadores já tinham até dominado o bote e o levavam para um dos navios. Felizmente, a partir dai as coisas começaram a ficar um pouco menos piores. Todos os nossos barcos já haviam parado de tentar afundar a rede e, os que estavam afundando pelo menos não eram mais tão atacados. Conseguimos (finalmente!) ir até um deles, que estava sendo puxado para fora da rede por um dos barcos de pesca.

As pessoas estavam penduradas no que restava do bote e passaram para o nosso barco alguns segundos antes do barco afundar. E lá se foi um dos botes que mais fez ações pelo Greenpeace… mas foi com dignidade, lutando até o fim. Obviamente, enquanto puxávamos as pessoas para dentro, um pescador tentava furar o nosso barco com um gancho e os outros continuavam a gritar coisas que não pareciam elogios…

Contamos todas as pessoas e voltamos para o Arctic. Quando chegamos descobrimos que um dos ativistas havia sido machucado pelos pescadores. Um gancho que foi lançado para dentro do bote perfurou a batata da perna dele, mas por sorte não pegou nenhuma artéria ou tendão. O detalhe é que os pescadores malucos continuaram a puxar o cabo que estava preso ao gancho, mesmo vendo o que tinha acontecido… Ele foi levado para Malta no helicóptero e está no hospital, bem.

Foi triste ver a violência com que nosso protesto foi recebido e a ganância que move estes pescadores, que não estão ali fazendo uma pesca sustentável e artesanal. Eles estão ali para encher o bolso de dinheiro de alguns poucos que querem encher a barriga de atum azul e para isso quase já dizimaram a espécie inteira.

O Greenpeace luta para que o atum azul seja incluído na lista das espécies em extinção, para que a pesca dessa espécie seja proibida e para que sejam criadas areas marinhas onde eles possam se reproduzir, em um ambiente saudável. Afinal, o que vale mais, oceanos saudáveis ou mercados cheio de atuns azuis no Japão?

Assista o video da ação aqui.

João Talocchi  – Ativista brasileiro

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