O elefante branco de Tróia II

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Graças à ‘segurança’ da indústria nuclear, baianos já convivem com água radioativa

César Gama

 

Os defensores da instalação de usinas nucleares ao longo do rio São Francisco sustentam a tese inverossímil de que a segurança em centrais como as de Angra dos Reis evoluiu e hoje é absoluta, não existindo o risco de acidente com vazamento radioativo. Razão pela qual a água do rio, consumida por quase 60% dos sergipanos e 40% dos alagoanos, em tese permaneceria potável pelo resto da eternidade, mesmo com a implantação das usinas planejadas pelo governo federal para o vale do São Francisco.

Para corroborar a tese que defendem, alegam que a segurança nos atuais reatores nucleares é muito reforçada e completamente diferente daquela que provocou os dois maiores acidentes nucleares, em Chernobyl, na Ucrânia, e Three Mille Island, nos Estados Unidos.  Afirmam isso sem investigar os fatos ou deliberadamente omitindo as informações, sem o mínimo peso na consciência e sem levar em consideração que acidentes bem menores – que não tiveram a dimensão e divulgação midiática destes dois casos – são muito mais freqüentes do que se imagina e invariavelmente ocultados pelas empresas e governos que administram as centrais. E ainda assim, tais acidentes têm conseqüências desastrosas e permanentes, pelo menos até as próximas gerações, pois mesmo sem a explosão de reatores ou o derretimento do núcleo de centrais, acabam deixando vazar resíduos radioativos para o ambiente, provocando danos consideráveis à natureza e às populações humanas ao redor.

O exemplo mais evidente disso, já tratado na primeira parte deste trabalho, na edição dominical anterior do Correio de Sergipe, foi o acidente de julho de 2008 com a unidade nuclear da estatal Areva – a mesma que agora auxilia o Brasil na gestão das usinas nucleares – em Tricastin, na França, onde milhares de pessoas dos municípios ao redor da usina foram proibidas de consumir água do sistema municipal de abastecimento em virtude da contaminação por líquidos radioativos de dois rios, o Gaffiere e o Lauzons (afluentes do Ródano),  que abasteciam as cidades da região. As comunidades locais são obrigadas a recorrer à água engarrafada, não podem nadar, pescar e nem mesmo utilizar água dos poços subterrâneos, em função do lençol freático da região ter sido afetado pela radiação. O mais grave é que a Agência de Segurança Nuclear francesa revelou à época que a contaminação do lençol freático já vinha ocorrendo antes do acidente de 2008, ficando claro que a estatal Areva ocultava os fatos da população.  

Proibido beber água na Bahia

No Brasil, já há um acidente grave com radiação em curso e com deliberado ocultamento do fato pelo governo federal, aqui mesmo próximo a Sergipe, na Bahia, onde as comunidades dos municípios ao redor da mina de urânio das Indústrias Nucleares do Brasil, a estatal brasileira que administra a exploração do minério, sofrem graves consequências.

Desde dezembro do ano passado que a Secretaria da Saúde da Bahia notificou as prefeituras dos municípios de Caetité, Lagoa Real e Livramento de Nossa Senhora proibindo o consumo de água em seis poços artesianos e mananciais superficiais de água utilizados pela população rural destes municípios, em função do alto índice de radioatividade na água. A mina tem sido denunciada constantemente pelo Greenpeace por deixar vazar no ambiente grande quantidade de material radioativo desde que foi aberta, contaminando as terras e o lençol freático da região. As Indústrias Nucleares do Brasil negam sua responsabilidade e continuam a operar negligentemente na região.

Box 1

Já são centenas os acidentes em usinas que vazam radiação

É preciso desmistificar o primeiro grande mito dessa história de energia nuclear: o de que as centrais são 100% seguras. Tal diagnóstico é alardeado em profusão pelo governador Marcelo Deda e o deputado federal Albano Franco, interessados em trazer uma usina para terras sergipanas. Ao garantirem a segurança do projeto como verdade absoluta, todos se escondem por trás de máscaras. Apostam na segurança de toda uma população sem saberem do que estão falando, pondo em risco a saúde de todos os sergipanos.

Na verdade, as centrais nucleares podem ser 100% seguras sim, mas apenas para os próprios fabricantes destas usinas, para os empreiteiros que querem ganhar fábulas de dinheiro instalando-as, e para os governos interessados em inflar caixas de campanha com doações de verbas que muitas vezes desembocam na política por vias transversas.  Elas só não são 100% seguras para a população.

É do físico nuclear carioca Anselmo Paschoa, pesquisador do Laboratório de Radioecologia e Mudanças Globais da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que em 2000 atuou numa investigação do governo federal acerca das condições de segurança das usinas de Angra, a seguinte conclusão: “a probabilidade de um acidente de grandes proporções acontecer com uma usina nuclear é muito pequena, mas sempre existe. Por muito tempo as usinas nucleares venderam a imagem de que estão imunes a acidentes, o que não é verdade”.

Só para que você tenha uma idéia, transcrevo abaixo um relato, não em ordem cronológica, mas sim por grau de importância em relação ao que interessa, com o resumo dos muitos acidentes já registrados no mundo envolvendo centrais nucleares, inclusive aqueles ocorridos recentemente na França e nos Estados Unidos, que provocaram sérias reservas destes governos quanto a continuar instalando tais usinas para a geração de energia elétrica.

Alguns acidentes com radiação

  • Em 27 de dezembro de 2009, o Instituto de Gestão de Águas e Clima – INGÁ, e a Secretaria da Saúde da Bahia notificaram as prefeituras dos municípios de Caetité, Lagoa Real e Livramento de Nossa Senhora, na região Sudoeste do estado, a proibirem preventivamente o consumo de água em seis poços artesianos e mananciais (chafarizes) superficiais utilizados por parcela da população rural destes municípios. Os poços apresentaram, em análises realizadas em setembro do mesmo ano pelo Instituto, um índice de radioatividade na água potável 40 vezes superior ao tolerável para seres humanos, segundo regras do Ministério da Saúde. Há vários anos que o Greenpeace vem denunciando que a Mina de Urânio em Caetité, na Bahia, operada pela estatal Indústrias Nucleares do Brasil, vem contaminando sistematicamente com urânio o lençol freático da região.  O Ingá há muito tempo já havia confirmado a contaminação radioativa, mas a estatal nuclear nega que a Mina esteja contaminando a região, alegando que o alto índice de radioatividade é conseqüência da presença de urânio em estado natural no solo da região, mas se recusa a apresentar provas de que seus argumentos são verdadeiros. Tem sido relatada a incidência de uma série de casos de câncer na região pelas vigilâncias epidemiológicas municipais;
  • Anteriormente, em 2004, chuvas excessivas atingiram a área da mina de urânio de Caetité, na Bahia, quando a bacia de retenção da mina transbordou sete vezes, liberando efluentes líquidos com concentração de urânio-238, tório-232 e rádio-226 no leito do Riacho das Vacas. Em função desse acidente, fiscais da Comissão Nacional de Energia Nuclear elaboraram parecer técnico solicitando a paralisação das atividades de mineração em Caetité e a não renovação da licença de operação da mina, mas não obtiveram êxito;
  • Em 2005, o Greenpeace denunciou um novo vazamento na região da mina de urânio de Caetité, na Bahia, que levou a estatal nuclear de mineração a receber do Ibama uma multa de R$ 1 milhão. Já em 2000, no primeiro ano de operação da mina na Bahia, as Indústrias Nucleares do Brasil tentaram esconder 5 milhões de litros de licor de urânio que foram liberados no meio ambiente, contaminando o solo e o lençol freático dos municípios onde hoje parcela da população rural está proibida de consumir água dos poços artesianos;
  • Em março de 1979, a usina americana de Three Mile Island, na Pensilvânia, foi palco do pior acidente nuclear até então registrado antes de Chernobyl, na Rússia, quando a perda de refrigerante fez parte do núcleo do reator derreter. Nos meses que se seguiram, os animais morreram, adoeceram ou apresentaram comportamentos estranhos. Centenas de pessoas têm morrido ou adoecido ao longo dos anos em decorrência de enfermidades próprias de áreas contaminadas por radiação. Centenas apresentaram doenças graves após o evento, com aumento de cânceres, leucemia e outras doenças no sangue, no sistema nervoso, nos órgãos digestivos e respiratórios. Centenas também sofreram de grave depressão psicológica. Este acidente foi provocado por defeito numa válvula, parecido com falha ocorrida também em Angra I, no Brasil, em 1997 (vide mais abaixo). Com o defeito em Three Mile Island, ocorreu o aumento na temperatura do núcleo do reator, que fundiu-se e provocou o derrame de material radioativo no ambiente, com a formação de uma perigosa bolha de hidrogênio que ameaçava explodir e lançar ao ar toneladas de material radioativo. Para evitar a explosão, foi liberada na atmosfera uma quantidade indeterminada de gás radioativo que afetou toda a região. As ações de emergência falharam, só ocorrendo a retirada de mulheres grávidas e crianças do local dois dias após o acidente. O pior: a grave tragédia de The Mile Island pode voltar a ocorrer, pois ninguém sabe até quando se poderá conter o núcleo derretido do reator, que continua reagindo;
  • Em 26 de abril de 1986 ocorreu o maior acidente nuclear na usina de Chernobyl, na Ucrânia – região da antiga União Soviética, quando a equipe de plantão da central foi realizar inadvertidamente um teste para verificar se as turbinas da usina poderiam produzir energia suficiente para manter as bombas de resfriamento funcionando na hipótese de uma interrupção no suprimento de energia. O teste não saiu como o planejado e produziu-se uma onda de energia inesperada, enquanto o desligamento de emergência do reator acabou falhando. O sistema entrou sofreu reação em cadeia e o reator explodiu. Até 6 de maio de 1986 as chamas consumiram incontrolavelmente a usina, espalhando radiação no ar por toda a Ásia e Europa. A explosão lançou na atmosfera uma nuvem radioativa 6 milhões de vezes maior do que a do acidente na usina Three Mile Island, nos EUA. (vide acima). A Ucrânia, a Bielorrússia e o Oeste da Rússia foram atingidas por uma precipitação radioativa de mais de 50 mil toneladas. 350 mil habitantes próximos à usina tiveram de abandonar suas casas. Estima-se que pelo menos 25 mil funcionários que trabalharam diretamente na tentativa de conter o desastre (bombeiros, policiais, técnicos, etc.) morreram no período ou ao longo dos anos, vítimas de doenças provocadas pela radiação. Um relatório da Rússia supõe que mais de 300 mil pessoas já morreram e milhares continuam morrendo ou se tornando portadoras de doenças graves em decorrência da radiação que ainda hoje emana do local. O ex-presidente dos Estados Unidos, Al Gore, relata em seu livro “Nossa Escolha” que o País de Gales, no Reino Unido, localizado há quase 3 mil quilômetros de distância de Chernobyl, sofreu os efeitos do acidente “e ainda hoje não é seguro ingerir carne de carneiro em algumas regiões daquele país”. O número total de pessoas contaminadas seria de 5 milhões e a área geográfica inutilizada de cerca de 140 mil quilômetros quadrados. Um trabalho científico da Nature, em 1995, revelou que os índices de câncer de tireóide em crianças ucranianas quintuplicaram e chegam a ser 30 vezes maiores entre aqueles que moravam próximos a Chernobyl. Em 1997, a OMS informou que o índice de câncer nas crianças passou a ser cem vezes superior ao nível registrado antes do acidente. Mas o pior ainda está por vir: segundo informação do Greenpeace, alguns cientistas predizem que a próxima catástrofe nuclear da esfera de Chernobyl será mesmo na própria central ucraniana, em função do estado frágil do seu escudo protetor – uma cobertura maciça, aparentemente indestrutível, de 410 mil metros cúbicos de concreto e 7 mil toneladas de aço para conter a liberação de radiação para o ar – que só duraria entre 20 a 30 anos. O detalhe é que já se passaram 20 anos desde o acidente;
  • A França é um dos países que mais conta com usinas nucleares no mundo e onde têm ocorrido a maioria dos últimos acidentes com centrais do gênero. Em 8 de julho de 2008, um acidente com vazamento de urânio, na Usina Nuclear da Socatri, administrada pela Areva e localizada na região turística de Vaucluse, provocou a contaminação de dois rios, levando o governo a proibir a população de Triscastin (Avignon) de beber a água dos rios atingidos ou de utilizá-la na irrigação de plantações. Segundo a Agência de Segurança Nuclear da França – ASN , 30 metros cúbicos de líquido contendo urânio transbordaram de uma fábrica daquela central nuclear. O acidente ocorreu às 7:30 h do dia 8 de julho, mas só às 13 horas as autoridades começaram a tomar as primeiras providências. À época, o Secretário de Estado do Meio Ambiente da França, Michael Muller, segundo o jornal El País, declarou que “a tecnologia nuclear é de alto risco”;
  • Em 16 de julho de 2007, um terremoto atingiu o noroeste do Japão, provocando um incêndio na usina nuclear Kashiwazaki-Kariwa e o vazamento de um litro e meio de água radioativa. Inicialmente a indústria nuclear do Japão mentiu sobre os verdadeiros impactos do terremoto e do incêndio, afirmando que não havia perigo de vazamento de radioatividade. 100 barris de lixo nuclear com resíduos de baixo nível tombaram durante o terremoto e foram encontrados sem a tampa, além de 50 casos de vazamentos de água radioativa;
  • Em setembro de 1999, três trabalhadores morreram em função da alta irradiação e comunidades locais tiveram que ser evacuadas após falhas humanas de procedimento na fábrica de combustível nuclear de Tokaimura, no Japão;
  • Em agosto de 2004, a ruptura de um cano da usina nuclear Mihama, no Japão, matou cinco trabalhadores. Dezessete reatores operados pela companhia TEPCO foram desligados após ter sido descoberta falsificação de documentos sobre inspeção de segurança;
  • Em abril de 2006, 40 litros de líquido extremamente radioativo contendo plutônio foram liberados ao ambiente, de uma nova planta de reprocessamento do combustível nuclear, em Rokkasho-Mura, no Japão; 
  • Em 29 de outubro de 2007, o governo russo anunciou o vazamento de líquido radioativo da usina Maiak, na região dos Montes Urais. Uma vedação defeituosa permitiu que o líquido radioativo vazasse de um reservatório e se espalhasse por cerca de 1,5 quilômetros de uma estrada na usina. As autoridades minimizaram a gravidade do acidente afirmando ter o vazamento ocorrido longe de zonas populosas. A usina de Maiak, segundo o Greenpeace, ONG internacional de defesa ambiental,  foi palco de uma série de acidentes em 1949, 1957 e 1967, ocultados pelo governo soviético. Vladimir Chuprov, líder do Greenpeace na Rússia, afirma que a usina é um dos lugares com maior índice de radioatividade do planeta e que os milhares de habitantes da região ainda sofrem com o acidente ocorrido em 1957, um dos maiores do país antes do acidente de Chernobyl, que expôs comunidades inteiras à radiação. A incidência de leucemia, dos mais diversos tipos de cânceres e de mutações teratogênicas em recém nascidos são um lugar comum em toda a região;
  • Em julho de 1997, o reator nuclear de Angra I teve que ser apressadamente desligado por defeito em uma válvula. Segundo o físico Luiz Pinguelli Rosa, o defeito assemelhou-se ao ocorrido na usina de Three Mile Island (EUA), em 1979. (vide acima);
  • Em outubro de 1997, o físico Luiz Pinguelli Rosa alertou para novo acidente na Usina Angra I, com vazamento radioativo em função de falhas nas varetas do combustível nuclear;
  • Em 7 de outubro de 2003, Angra I teve que ser novamente desligada às pressas, em função de outro incidente, que a Eletronuclear, em linguagem hermética, anunciou como sendo “um evento não usual”, um “aumento na taxa de passagem do sistema primário para o secundário”. O hoje Ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, à época deputado carioca, denunciou em 2003 que, em 18 anos de funcionamento, até aquela data já haviam ocorridos 34 acidentes e incidentes em Angra I;
  • Ano passado a Eletronuclear comunicou um novo vazamento de material radioativo, agora na usina nuclear Angra 2, no Rio de Janeiro, ocorrido dia 15 de maio de 2009, mas só informado à opinião pública no dia 26 de maio daquele ano,  com a contaminação de três a cinco servidores, num incidente provocado por erro humano, quando um funcionário esqueceu de fechar uma porta quando fazia manutenção, permitindo a circulação de material radioativo no exterior da usina. A estatal garantiu que o vazamento foi insignificante e não teria causado maiores impactos ao meio ambiente ou à população em geral;
  • Em novembro de 2009, a companhia Exelon Nuclear emitiu alerta de contaminação, de novo na usina nuclear de Three Mile Island, situada na cidade de Middletown, Pensilvânia, com vazamento radioativo de um dos seus módulos. Os 150 trabalhadores que estavam de serviço tiveram que ser retirados às pressas. A unidade estava fechada desde o mês de outubro de 2009 para recarregar combustível. Segundo o diário “The Examiner”, 20 trabalhadores foram tratados por excesso de radiação;
  • Em 23 de julho de 2009, pelo menos 100 trabalhadores da usina nuclear de Tricastin, no sudeste da França, foram ligeiramente contaminados em função da fuga de pó radioativo, na verdade 74 quilos de urânio, de um encanamento ligado ao reator, que estava aberto e em processo de manutenção. As autoridades informaram que a situação não foi grave;
  • Em novembro de 2007, durante uma troca de combustível da usina nuclear Ascó I, na Espanha, ocorreu vazamento de material radioativo pelo sistema de ventilação, por conta de falha humana, contaminando um container próximo. A empresa administradora da usina não comunicou o fato à população e, em abril de 2008, um caminhão retirou o container e o levou para fora da usina, contaminando áreas públicas. A quebra da segurança foi mantida em sigilo pela usina e denunciada pelo Greenpeace. Pressionada, a empresa admitiu o fato e acabou anunciando que o vazamento foi cem vezes maior do que o informado logo no início;
  • Em maio de 2008, a Agência de Segurança Nuclear francesa ordenou a interrupção do Reator Pressurizado Europeu – EPR, em Flamanville, após a descoberta de problemas crônicos afetando a qualidade da obra da usina desde o início do projeto, em 2007. Em 19 de julho do mesmo ano a agência autorizou a retomada das obras, apesar de ter ficado constatado que o EPR enfrenta uma série de problemas de segurança e aumento de custos, embora seja vendido pelo governo francês como sendo mais seguro, mais barato e confiável que as versões de centrais nucleares anteriores;
  • Em 18 julho de 2009, um vazamento de água radioativa escapou de tubulação subterrânea de usina nuclear controlada pela Companhia estatal Areva de Eletricidade, no sudoeste da França, o segundo vazamento em menos de um mês naquele período.
  • Em 01 de fevereiro de 2009, o The Canadian National Newspaper informou o vazamento de 7 mil litros de água radioativa potencialmente carcinogênica (capaz de provocar tumores cancerígenos) no mais importante rio do Canadá, o Ottawa. O vazamento ocorreu num reator nuclear estatal de pesquisas, o Canadian Chalk River Laboratories. O rio é fonte de abastecimento de água para milhões de canadenses e a população que dele se abastece só foi informada vários dias após a ocorrência do vazamento, o que seguramente poderá explicar um possível aumento na incidência de cânceres na população local. De acordo com o jornal Canadian Nuclear Safety Comission, o fato só foi comunicado 4 dias após o acidente e, mesmo assim, a estatal relatou um vazamento cinco vezes menor do que aquele que realmente ocorreu. A empresa responsável pelo reator propôs descontaminar a área, ao longo dos próximos 300 anos, a um custo de 2,6 bilhões de dólares;
  • A central nuclear de Vermont Yankee, no estado de Vermon, nos Estados Unidos, reduziu a produção de energia em 60%, em janeiro de 2009, após encontrar vazamento de água radioativa em um tubo que fornece água para geração de vapor ao reator. Foi o segundo vazamento ocorrido no sistema em poucas semanas. Antes disso, em agosto de 2008, uma falha humana na operação do sistema de purificação de água para o reator obrigou a evacuação de todos os funcionários da central;
  •   Em outubro de 2008, a central nuclear de Davis-Besse, em Ohio, Estados Unidos, sofreu acidente com vazamento de água radioativa que já vinha ocorrendo há algum tempo sem que tivesse sido detectado. A descoberta do vazamento se deu por acaso. A comissão de regulação nuclear dos Estados Unidos, a NRC, informou que vazaram 455 litros de água irradiada. Foi constatado que o nível de contaminação nos poços da região supera em quase duas vezes os padrões de segurança no país para água potável.

 

Box 2

 

 

Os altos custos

Da energia atômica

O Greenpeace no Brasil contratou um extenso documento à Universidade de São Paulo, cujo relatório final intitulou “Elefante Branco – Os Verdadeiros Custos da Energia Nuclear”, em que os pesquisadores elaboraram um aprofundado estudo sobre a viabilidade econômica de Angra 3. O resultado foi desanimador.

O relatório prevê que Angra 3 custará aos cofres públicos, além dos R$ 7,2 bilhões oficialmente divulgados, mais R$ 2,3 bilhões por conta dos juros sobre o capital imobilizado para a obra. O detalhamento dos números, a cargo do professor da USP Miguel Edgard Morales Udaeta, revela que o governo, para obter uma tarifa de 138,20 por Megawathoras para a energia gerada por Angra, aplicou taxas irreais de retorno para o investimento entre 8% a 10%, muito abaixo das praticadas pelo mercado, em torno de 12% a 18%, transferindo o prejuízo para o Tesouro Nacional.

Ricardo Baitelo, engenheiro elétrico especialista do Greenpeace, autor do estudo Cortina de Fumaça, encomendado pela ONG ambiental, afirmou que existem alternativas mais eficientes, mais baratas e seguras para atender à crescente demanda por energia no país. Segundo ele, “com os mais de R$ 7 bilhões que foram previstos para Angra 3, por exemplo, seria possível construir um parque eólico com o dobro da capacidade da usina nuclear, que é de apenas 1.350 MW, sem gerar lixo tóxico e sem o risco de acidentes. O governo Lula poderia ainda buscar inspiração no Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica – Procel, que com apenas 12% do investimento de Angra 3 (ou R$ 850 milhões), economizou 5.124 MW, ou quatro vezes a capacidade da usina nuclear”.

“Angra 3 só será viabilizada se for permitido um verdadeiro saque aos cofres da União. O cidadão e o consumidor irão pagar pelos altos custos da aventura nuclear brasileira”, revelou há algum tempo Beatriz Carvalho, coordenadora de campanha anti-nuclear do Greenpeace no Brasil.

De acordo com o relatório “Elefante Branco” do Greenpeace, as baixas taxas de retorno para garantir a energia nuclear através de subsídios do erário irão acarretar perdas financeiras médias de até R$ 4 bilhões.

 Em abril de 2008, o diretor da estatal de Furnas Centrais Elétricas, em entrevista ao jornal Gazeta Mercantil, já informava à época que a empresa vinha acumulando prejuízos de “algumas centenas de milhões de reais”, em função da venda subsidiada de energia produzida pelas usinas nucleares de Angra.

Mas além do custo de aquisição dos equipamentos e de instalação e da manutenção das centrais pelo tempo em que operarem, as usinas nucleares têm um outro: o custo de manutenção dos resíduos radioativos. Programadas para durarem no máximo 40 a 60 anos, as usinas, após esse período, precisam ser desativadas, mas as operações de manutenção das centrais e de acondicionamento e proteção dos rejeitos radioativos que se acumularam ao longo das décadas precisam ser mantidas indefinidamente. Assim, após os 40 anos de produtividade, as usinas continuam gastando milhões de reais mensais de recursos do erário.

O coordenador do Portal Ecodebate, Henrique Cortez, rebateu o argumento do presidente da Eletronuclear, de que o Brasil não precisará se preocupar com os rejeitos nucleares pelos próximos 500 anos: “Mesmo se considerarmos o tal prazo de ‘apenas’ 500 anos, teríamos que supor que a Eletronuclear continuasse a existir ao longo deste ‘curto’ prazo, que gerenciasse o risco, fizesse a manutenção, etc. Ou seja, cuidasse do resíduo por mais de 4 séculos após o descomissionamento das usinas. Quem garante a existência da Eletronuclear por séculos?”

Henrique Cortez faz uma outra advertência: “uma usina nuclear no Nordeste é uma bobagem por definição. O Nordeste é caracterizado por déficit hídrico (evaporação três vezes maior que a precipitação) e cada gota de água é essencial para a convivência com o semi-árido: uma usina nuclear é uma usina termoelétrica que produz energia elétrica em turbinas a vapor, do mesmo modo que uma termelétrica a gás, carvão ou biomassa. E por incrível que possa parecer a Eletronuclear demanda muita água para produção de vapor. Uma usina termelétrica nuclear de 1,3 MW consome, por dia, o equivalente a uma cidade  com 100 mil habitantes. Será que ninguém percebeu que a bacia do São Francisco é uma bacia sob intenso stress hídrico e diante de um cenário de crise crescente em razão de sua degradação?”.

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