O Elefante Branco de Tróia – Parte Final

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Usina Nuclear: poder político e econômico aluga tecnocratas  para validar ganância pedratória travestida de progresso

 César Gama*

 

“(…) a massa da humanidade é governada não por suas intermitentes sensações morais, menos ainda pelo auto-interesse, mas pelas necessidades do momento. Parece fadada a destruir o equilíbrio da vida na terra – e, assim, ser o agente da sua própria destruição (…)”

“(…) apenas alguém milagrosamente inocente em relação à história pode acreditar que a competição entre idéias possa resultar no triunfo da verdade. Certamente as idéias competem umas com as outras, mas os vencedores são normalmente aqueles que têm o poder e a loucura humana do seu lado (…)”.

John Gray

Professor de filosofia da London Schools of Economics

 

Em meio à discussão sobre a instalação de uma usina nuclear às margens do rio São Francisco –  possivelmente em terras sergipanas, como desejam o governador de Sergipe Marcelo Deda e o deputado federal Albano Franco -,  a apresentação de argumentos pró e contra o uso da energia atômica vem sempre acompanhada por uma estratégica cortina de fumaça.

 A tecnocracia auto-interessada a serviço do governo une-se em simbiótica relação à elite econômica – que só consegue enxergar o quanto vai ganhar com a destruição de seja lá o que for -, e deflagra poderoso lobby a agir como verdadeiro rolo compressor inibindo a resistência ao “novíssimo” projeto tecnológico “salvador da pátria” e do desenvolvimento econômico e social.

Ato contínuo, jornalistas, também a serviço do poder político, fazem ecoar na mídia alinhada as providenciais conclusões positivas sobre o projeto, elaboradas por técnicos supostamente independentes e observados do alto do enganador argumento de autoridade decorrente de suas formações profissionais.

O resultado é que os responsáveis pela cortina de fumaça conseguem validar, como sendo eficaz e fundamental à sobrevivência humana, qualquer projeto por mais coletivamente suicida que ele venha a ser, afastando com tranqüilidade e sem peso na consciência todas as objeções dos recalcitrantes, enquanto escondem as subterrâneas conexões destes técnicos com o lobby da elite econômica interessada.

Tem sido exatamente assim o comportamento do atual lobby deflagrado no estado para tentar instalar uma usina nuclear em Sergipe. Um caminhão de desinformação vem sendo veiculado pela mídia com base na tecnocracia de aluguel e no argumento do princípio de autoridade de vistosos currículos profissionais dos técnicos “independentes”.

A opinião pública fica mesmo sem saber de que lado está a razão. Se está do lado dos ambientalistas, que vêem a energia atômica como alternativa tecnológica arriscada à sobrevivência da humanidade para que seja colocada em pauta como solução contra a crise energética e o aquecimento global; ou do lado do poder político e econômico, que observa a energia nuclear como opção viável e absolutamente segura para resolver o impasse energético mundial, mas cujos interesses se resumem no lucro da operação e nos acordos políticos internacionais.

Assim, vão se disseminando idéias descabidas. A exemplo da que afirma não ter ocorrido mais nenhum acidente em centrais nucleares além daqueles de Three Mile Island, nos Estados Unidos, e Chernobyl, na Ucrânia, quando na verdade já ocorreram centenas de acidentes e incidentes com usinas, deixando vazar radiação para o ambiente seja por erro humano ou falhas técnicas (Vide a reportagem da edição dominical anterior do Correio de Seregipe, enumerando dezenas de casos do gênero).

Por um processo de desinformação deliberada, de falta de conhecimento adequado ou mesmo de evidente incapacidade na apreensão da informação, porta-vozes do governo chegam a afirmar que além de não ter ocorrido nenhum acidente com outra usina, as centrais de Angra também nunca teriam sofrido problemas. Muito embora já ultrapasse a casa das duas dezenas as falhas constatadas nas usinas cariocas, inclusive com contaminação de trabalhadores por radioatividade, apesar das autoridades iludirem a população garantindo justamente o contrário: o de que ninguém no Brasil foi vítima de acidente dessa espécie.

Outro desinformado, ou propositalmente escamoteando a informação, afirma candidamente que as usinas funcionarão por 60 anos e depois serão desativadas “para que sejam submetidas a um processo de descontaminação segura”, como se fosse possível liberar a área ao redor da central e descontaminar, em menos de 200 mil anos, um gigantesco elefante branco emitindo radiações extremas, que precisa ser mantido isolado em verdadeiro sarcófago de toneladas de concreto e aço por milhares de anos, até que os resíduos radioativos acumulados enfraqueçam e não ameacem destruir o ambiente e os seres humanos.  

Lobistas usam formação para defender indústria

Mais adiante, dando prosseguimento à cortina de fumaça, um jornalista insinua que “um dos fundadores do Greenpeace”, o ambientalista, biólogo florestal e doutor em Ecologia, Patrick Moore, defende a energia nuclear como uma boa alternativa para o mundo, especialmente para combater o aquecimento global, por se tratar de “energia limpa”, que não emite CO2 (dióxido de carbono, gás que, lançado na atmosfera, aumenta o efeito estufa sobre o planeta).

 Estrategicamente, o jornalista esquece-se de informar que o ex-fundador do Greenpeace é hoje um próspero técnico da indústria nuclear, aliás, um competente lobista a usar seu nome e sua formação profissional para atestar os benefícios e a segurança dessa indústria, sendo hoje o porta voz da instituição denominada Coalizão pela Energia Limpa e Segura, uma oportunista aliança mantida pela associação da indústria nuclear americana, de quem hoje Patrick depende profissionalmente.

Anos antes, Patrick  já tinha concluído ser a energia nuclear “a mais perigosa invenção da humanidade”, mas hoje reviu seu conceito – não desinteressadamente, é de se supor – e  agora considera esta energia “a mais limpa e segura que existe”.

Falta agora, na próxima etapa, o poder político e econômico usar a mídia para ressuscitar outro técnico atualmente “encantado” com a energia nuclear, o cientista inglês nonagenário James Lovelock, autor, dentre dezenas de obras, de “A Vingança de Gaia” e “A Hipótese Gaia”, este último um livro onde elaborou, décadas atrás, a teoria segundo a qual o planeta terra se comportaria como uma espécie de organismo vivo, a reagir fisiologicamente a ação dos demais seres vivos sobre ele.

Inicialmente ridicularizado e até execrado pela comunidade científica por conta da teoria, em que a ciência clássica identificava componentes místicos, com o tempo tornou-se famoso e mundialmente reconhecido diante da constatação de que de fato a terra reagia aos efeitos da ação humana sobre ela, através de um complexo sistema formado por intrincados mecanismos de feedeback (retroalimentação da informação), em que animais, vegetais, minerais, água, sol, luz, calor, nuvens, ventos, geleiras, marés, etc., funcionando em conjunto e interagindo, promovem a manutenção do equilíbrio do planeta terra, que se torna, assim, auto-regulado.

Pois bem, Lovelock, que já foi ferrenho inimigo da energia nuclear e, assim como Moore, a considerava um estorvo para o planeta, é hoje o adepto número um da chamada “energia limpa” e a defende com unhas e dentes a tal ponto que, em sua última obra, “Gaia: Alerta Final”, ele chega a minimizar as objeções quanto ao lixo radioativo produzido por essa indústria ao afirmar simploriamente que “ (…) eu receberia de bom grado esse lixo para ser enterrado em minha casa, em Devon. Seria uma fonte útil de calor”.

Lovelock é de opinião que em 600 anos esse lixo não será mais radioativo, mas omite deliberadamente o lixo de alta radiação – como o urânio- 238 , cujas emissões perigosas podem durar bilhões de anos antes de atingir a sua meia vida.

O autor da hipótese Gaia também não parece levar em conta que na verdade ele só precisará conviver com a temeridade de suas declarações e os perigos do lixo atômico apenas pelos próximos 10 ou 15 anos – afinal, com 90 anos de idade, ele deixará irresponsavelmente para os seus descendentes a herança de conviver por toda a vida, e a dos seus netos e bisnetos, com a insegurança e os riscos decorrentes da radiação que ele tanto minimizou.

Para Tim Flannery, o ambientalista australiano autor do livro “Os Senhores do Clima”, Lovelock optou pela energia nuclear apenas por não considerar nenhuma outra fonte alternativa de energia como viável e ter observado a energia atômica como única opção para deter o aquecimento global, fenômeno do qual Lovelock infere que já podemos ter ultrapassado a zona limítrofe de retorno.

Pois bem, para finalizar, queremos lembrar aos estrategistas de plantão do governo que esqueçam Lovelock como argumento válido para corroborar suas teses em defesa da energia atômica. Em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, em 16 de janeiro deste ano, o maior defensor da energia nuclear no mundo foi claro ao afirmar que essa espécie de energia não é a melhor opção para gerar eletricidade limpa no Brasil: “as usinas nucleares são a melhor opção de energia limpa em países populosos e com restrições de espaço, como é o caso, por exemplo, do Reino Unido e do Japão. Para determinar a maneira mais eficiente e mais responsável de gerar energia em um país é preciso olhar as condições particulares de cada região. E eu creio que esta não seja a melhor opção para o Brasil. Vocês têm feito um bom trabalho com a geração de energia hidrelétrica”.

*César Gama é jornalista, psicanalista, professor, colaborador do Greenpeace, formando em Biologia e Bacharelando em Filosofia.

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