Energia: A economia diz não às centrais nucleares

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17/02/2010 – 01h02

Por Julio Godoy, da IPS Berlim, 17/2/2010 –

Os enormes riscos técnicos e financeiros da construção e operação de novas centrais nucleares as tornam proibitivas para os investidores privados, o que refuta a tese do renascimento da energia atômica, afirmam vários estudos europeus independentes.

Estes riscos incluem os altos custos e o longo tempo de construção, depreciação dos equipamentos e falta de garantias nos preços da eletricidade. A isto somam-se a crise financeira mundial e a consequente cautela dos investidores, além das dificuldades fiscais e financeiras dos governos de nações industrializadas, dizem os estudos. Na mais recente análise sobre a factibilidade de novas centrais nucleares, o grupo Citibank concluiu que alguns “dos riscos enfrentados pelos construtores são tão grandes e variáveis que cada um deles poderia, por si só, derrubar financeiramente a maior empresa de serviços públicos”.

O estudo do Citibank, intitulado “New Nuclear – The Economics Say No” (Novas centrais nucleares: a economia diz não), enumera cinco grandes riscos que construtores e operadores de novas centrais nucleares devem enfrentar, relacionados com o planejamento, a construção, o preço da eletricidade, o funcionamento e o fechamento das usinas. Até agora, os governos de países industrializados tentam “limitar o risco do planejamento” para os investidores, mas os perigos mais importantes são a construção, o preço da energia e o funcionamento, afirmou o grupo financeiro.

Organizações ambientalistas acrescentariam o risco dos problemas de segurança, em relação à manipulação de lixo radioativo e a probabilidade de acidentes nas centrais. O Citibank baseia suas conclusões em custos estimados de construção e funcionamento, e na necessidade de fixar tarifas de eletricidade muito altas para os consumidores. Segundo o informe, o custo de construir uma nova central nuclear varia entre 2.500 e 3.500 euros (cerca de US$ 3.400 e US$ 4.760) por quilowatt/hora. Para uma unidade média de 1.600 megawatts, o custo de construção chega a 5,6 bilhões de euros (US$ 7,6 bilhões). “A probabilidade de estes custos baixarem é muito pequena, e a de aumentarem é alta”, diz o estudo.

Diante dos efeitos para enfrentar estes custos, o operador precisa ter garantia de tarifas constantes da eletricidade. em torno de 65 euros (US$ 89) por megawatt/hora. por um longo tempo. O Citibank citou o caso da Grã-Bretanha, onde os preços se mantiveram nesse nível durante 20 dos últimos 115 meses. “A abrupta queda nos preços da energia levou a British Energy à beira da falência em 2003”, diz o informe. Outro estudo, feito pelo físico Christoph Pistner, do Instituto Alemão de Ecologia Aplicada, chegou a conclusões similares. Em seu informe sobre “o renascimento da energia nuclear” Pistner afirma que os construtores “devem pré-financiar por um período longo não usual os enormes custos de construção de uma nova central nuclear”. Em entrevista à IPS, Pistner afirmou que a maioria das centrais de energia devem funcionar pelo menos por 20 anos para atingir um funcionamento livre de depreciação e custos de deterioração.

Apenas depois desse período uma usina nuclear começa a dar lucro. Além disso, acrescentou, “a indústria dispõe de poucas referências sobre os custos de construção de novas centrais nucleares, porque há pouquíssimas unidades em construção”. Uma dessas unidades serve como alerta sobre os riscos deste tipo de projeto: a central nuclear de Olkiluoto 3, em construção na Finlândia desde 2004. Embora devesse gerar eletricidade em maio de 2009, seu término foi adiado várias vezes nos últimos dois anos.

No dia 11 deste mês, o gerente do projeto, Jouni Silvennoinen, anunciou em Helsinque que a inauguração “pode atrasar até depois de junho de 2012, que é o prazo atual confirmado pelo fabricante dos equipamentos”. O fabricante da Olkiluoto 3 é a estatal francesa Areva, e a empresa finlandesa TVO é a encarregada pela central, que também enfrenta uma alta explosiva dos custos de construção, inicialmente estimados em US$ 4,1 bilhões, estimativa esta que já subiu para US$ 7,2 bilhões e não está claro quanto vai custar em definitivo. Thibaut Madelin, especialista francês em energia nuclear, destacou que a crise financeira mundial aprofundou a incerteza vinculada aos custos de construção das centrais, o que torna improvável os grandes investimentos. Para Madelin, os atrasos na construção são o principal argumento contra as centrais nucleares.

“Construir uma central de 1.600 megawatts leva pelo menos oito anos ao custo de 6 bilhões de euros (US$ 8,2 bilhões), e “isso significa que o investidor vai começar a obter lucro somente oito anos após investir uma enorme quantidade de dinheiro”, disse Madelin à IPS. Agora, “se a construção de uma central nuclear demorar mais de dez anos, o projeto se transforma em uma catástrofe financeira”, ressaltou. Segundo a Agência Internacional de Energia Atômica, a média de demora na construção de centrais nucleares passou de 64 meses (mais de cinco anos) para 146 meses (mais de 12 anos) entre 1976 e 2008. IPS/Envolverde (IPS/Envolverde)

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