Relatos de vizinhos de uma usina

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Segue abaixo parte de uma matéria, que contém relatos de vizinhos da central de Almaraz, na Espanha:

Ao longe, um ponto azul observa o rebanho de ovelhas que pasta num dos terrenos das imediações da central nuclear de Almaraz. A aproximação revela a pessoa de Juan Sierra, um criador de gado sexagenário que começa logo por dizer que os campos estão mal. “Não há nenhum problema com a central, não interfere nos solos nem nos cultivos. O gado pasta aqui sem complicações. O problema é o Governo que não dá apoios”, explica, enquanto prepara a saída de mais ovelhas do seu armazém para as pastagens, com a ajuda do genro e de um grupo de outros homens. Ao fundo, as cúpulas brancas dos dois reactores da central irrompem na paisagem. A conversa aviva entretanto a memória deste extremenho natural de Saucedilla. “Lembro-me que houve uma fuga radioactiva, em 1988, ano em que tive umas 16 vacas que abortaram. Era algo que não costumava acontecer. Muitos animais saíram com malformações. Mas agora há mais vigilância e segurança”, afirma, expressando um sentimento que é partilhado pela maioria das populações que residem à volta da central que está em funcionamento há quase três décadas. “Mas, caso haja um incidente grave, não há salvação, para Espanha, nem para Portugal”, avisa, tendo em conta que a central está a apenas cem quilómetros da fronteira portuguesa e é refrigerada com água que vem e vai para o rio Tejo.

Tomás e Julia Vargas recordam-se bem daquele ano. Saray Vargas, a sua primeira neta, nasceu “muito mal, com apenas quatro dedos, sem esófago, sem antebraço e sem ânus. Os médicos disseram logo que não tinha hipóteses, mesmo assim ainda viveu dois anos e meio”, conta o avô, um sexagenário de Talayuela, que recusa deixar-se fotografar por já estar farto de repetir a história a todos os jornalistas que batem à sua porta. “O meu filho e a minha nora tiveram mais tarde quatro filhos e todos nasceram sem quaisquer problemas, o que prova que a malformação não tinha que ver com eles”, diz a avó, interrompida por Massimo García, líder da Plataforma de Vizinhos Afectados pela Central de Almaraz.

Este homem robusto, de 52 anos, diz-se vítima de perseguição desde o dia em que decidiu denunciar aos media espanhóis a relação entre a central nuclear e o cancro raro que o seu filho Carlos teve nos ossos. “146 crianças nasceram com malformações, 80% delas morreram, os que sobreviveram, como o meu filho, não querem falar”, explica, exibindo uma revista antiga, com a foto de uma criança com oito dedos num pé. Os protestos que já organizou junto à central valeram-lhe multas de vários milhares de euros. A doença que afectou o filho levou a mulher à depressão e o casal ao divórcio. Ansioso por contar tudo o que diz que sabe, atropela as palavras num espanhol cerrado. “Eles quiseram pagar-me para que me calasse”, garante o extremenho natural de Jaraiz de la Vera.

Quem diz não ter memória de nenhuma fuga radioactiva para o exterior da central, nem naquele ano nem em qualquer outro, é o porta-voz de Almaraz, Aniceto Sanchez. “Essas coisas que dizem são mentiras inventadas por pessoas que querem indemnizações. Os que trabalham aqui fazem testes médicos antes de serem admitidos para garantir que não têm predisposição para desenvolver qualquer doença. Isso é já uma forma de evitar que alguém apareça a dizer que existe uma relação”. A versão é mais ou menos confirmada pelo homem que em 1988 presidia à Câmara de Navalmoral de la Mata, o socialista José Corominas: “Lembro-me de que foi feito um estudo no hospital de Navalmoral, não sei se oficial ou não oficial, que dizia que não havia mais crianças malformadas depois do incidente do que havia antes. Não há provas de uma relação. Houve, sim, tentativas de manipulação.” O DN tentou obter, sem sucesso, mais esclarecimentos junto daquele hospital. E o Centro de Segurança Nuclear, CSN, que é quem regula as centrais de Espanha, fez saber que não guarda registos tão antigos.

Manuela Alegre Corral, que trabalha numa fábrica de tabaco em Talayuela, uma das principais zonas de produção da Europa, garante que em 1988 viu coisas deveras estranhas no hospital de Navalmoral de la Mata. O filho nasceu sem um rim. Jorge Gomez, hoje com 21 anos, protesta contra a central porque ela é má para o ambiente. “Não sei se é ela a culpada pela minha situação. O que sei é que se toda a gente tem dois rins porque é que eu só tenho um?”, questiona o jovem, que veio falar do assunto para a rua, longe do olhar dos amigos com quem estava. Alguns trabalham na central e acham que ela devia durar mais três décadas – pelo menos havia sempre emprego garantido.

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